Estudos de caso pelo mundo

Fonte: wirelesspt.net

Não importa quanto planeamento seja feito para a construção de um link ou de um de comunicação numa localidade, em algum momento você terá que começar a trabalhar e instalar alguma coisa. Este momento da verdade irá demonstrar a validade de suas estimativas e predições. É raro o dia em que tudo funciona precisamente como foi planeado. Mesmo depois da instalação de seu 1°, 10° ou 100° , você ainda irá descobrir que as coisas nem sempre funcionam da forma planeada. Este capítulo descreve alguns dos mais memoráveis projectos de rede. Quer você esteja embarcando em seu primeiro protejo de rede ou seja um macaco velho, é bom saber que há sempre mais para se aprender.

Recomendações gerais

As economias de países em desenvolvimento são muito diferentes daquelas do mundo desenvolvido e, assim, uma solução criada para um país mais desenvolvido pode não servir para o oeste da África ou o sul da Ásia. Especialmente, o custo de materiais produzidos localmente e o custo de mão- de-obra podem ser muito baixos, enquanto mercadorias importadas podem ser muito mais caras em comparação com os custos do mundo desenvolvido. Por exemplo, é possível fabricar e instalar uma torre de antenas a um décimo do custo desta mesma torre nos estados unidos, mas o preço da antena pode ser o dobro. Soluções que capitalizam nas vantagens competitivas locais, como o trabalho barato e materiais encontrados localmente, serão as mais fáceis de serem reproduzidas. Encontrar o equipamento correcto é uma das tarefas mais difíceis em mercados em desenvolvimento, pois a economia e sistemas de comunicação e transporte não estão plenamente desenvolvidos. Um fusível, por exemplo, é difícil de ser encontrado, assim, encontrar um fio que queime com uma certa corrente e possa substituir o fusível já é uma grande vantagem. A busca e o encontro de substitutos na região também incentiva empreendimentos locais, propriedade local e pode proporcionar a economia de dinheiro.

Protecção para os equipamentos

Plásticos baratos são encontrados em qualquer lugar do mundo em desenvolvimento, mas eles são feitos com materiais pobres e têm espessura fina, por isso pouco adequados para a construção de proteção para equipamentos. Tubos de PVC são muito mais resistentes e construídos para serem à prova dr água. No oeste de África, o tipo mais comum de PVC é encontrado em encanamentos, variando de 90mm a 220mm de diâmetro. Pontos de acesso como os Routerboard 500 e 200 cabem nestes canos e, com o uso de coberturas que podem ser soldadas a fogo em suas extremidades, podem ser feitas protecções a prova de água bastante robustas. Eles também têm o benefício de serem aerodinâmicos e de pouca atracção para as pessoas que passam por eles. O espaço deixado ao redor do equipamento garante uma boa circulação de ar. Também é conveniente fazer um furo de exaustão no fundo da protecção de PVC. O autor descobriu que este furo, porém, pode tornar-se um problema. Numa ocasião, formigas decidiram fazer seu ninho 25 metros acima do solo, dentro de um tubo de PVC que continha um access point. O uso de uma tela contra insectos, que pode estar disponível localmente, é recomendável para evitar a infestação.

Mastros de antena

A recuperação de materiais usados tornou-se uma indústria importante para os países mais pobres. De carros usados a televisores, qualquer material que tenha algum valor será desmontado, vendido ou reutilizado. Por exemplo, você verá veículos desmontados, peça por peça, todos os dias. O material resultante é organizado e colocado em um caminhão para ser vendido. Pessoas que trabalham com metais costumam estar familiarizadas com técnicas de construção de mastros de [antenas] de TV a partir de restos de metal. Depois de algumas poucas adaptações, estes mesmos mastros podem ser utilizados para redes sem fio.


O mastro típico é o poste de cinco metros, constituído de um cano de 30mm de diâmetro colocado uma base de cimento. O melhor é construir o mastro em duas partes, com um mastro removível que se encaixe a uma base um pouco maior em diâmetro. Alternativamente, o mastro pode ser feito com braços que possam ser presos a uma parede. Este projecto é fácil, mas requer o uso de uma escada para ser completado e, por isso, recomenda-se cuidado. Este tipo de mastro pode ser aumentado em vários metros e cabos de aço. Para reforçar o poste, fixe os três cabos espaçadas de 120 graus, formando um ângulo de ao menos 33 graus com a torre.

Envolva a comunidade local

O envolvimento da comunidade local é imperativo para a garantia do sucesso e sustentabilidade do projecto. O envolvimento da comunidade num projecto pode ser um grande desafio, mas se a mesma não estiver envolvida, a tecnologia não atenderá às suas necessidades ou sequer será aceite. Além disso, a comunidade pode sentir-se ameaçada e poderá sabotar a iniciativa. Independente da complexidade desta tarefa, um projecto de sucesso necessita do suporte daqueles a quem irá servir. Uma estratégia efectiva na obtenção do suporte é encontrar um patrocinador local respeitável, cujos motivos sejam de fácil aceitação pela comunidade. Encontre a pessoa ou pessoas que provavelmente estarão interessadas no projecto. Com frequência, irá precisar de as envolver em determinadas funções, tais como conselheiras ou membros do comité de direcção.


Estas já devem ter a confiança da comunidade, saber quais outros devem ser contactados e falar a língua da comunidade. Tome o tempo necessário e seja seletivo na busca das pessoas certas para o seu projecto. Nenhuma outra decisão afectará mais o seu projecto do que ter pessoas locais eficazes e de confiança em sua equipe. Adicionalmente, anote o nome de pessoas chave numa instituição ou comunidade. Identifique aqueles que podem ser oponentes ou proponentes para seu projecto. O mais cedo possível, procure conseguir o apoio dos potenciais proponentes e dissipe os oponentes. Esta é uma tarefa difícil que requer o conhecimento profundo da instituição ou comunidade. Caso o projecto não tenha um aliado local, o mesmo deve primeiramente dispor de algum tempo para adquirir o conhecimento e a confiança da comunidade.

Seja cuidadoso na escolha de seus aliados. Uma reunião da comunidade é frequentemente um bom local para a observação da política local, alianças e tudo o que está em discussão. A partir daí é mais fácil decidir a quem se aliar, quem pode ser o patrocinador local e aqueles que devem ser evitados. Tente não criar entusiasmo que não tenha garantias. É importante ser honesto, franco e não fazer promessas que não poderão ser mantidas. Em comunidades onde a maioria das pessoas sejam analfabetas, foque em serviços como internet para estações de rádio, impressão de artigos e fotos e aplicações não textuais. Não tente introduzir tecnologia em uma comunidade sem antes entender quais aplicações realmente podem servi-la. Com frequência, a comunidade não terá ideias sobre a forma pela qual novas tecnologias podem ajudar em seus problemas. A simples oferta de novas funcionalidades é inútil, sem que exista o entendimento de como a comunidade pode se beneficiar delas.


Ao recolher informações, verifique os dados que são fornecidos. Se você quiser saber da saúde financeira de uma empresa ou organização, peça para ver uma conta de energia eléctrica ou de telefone. Se estão a pagar as contas? Em muitos momentos, os beneficiários em potencial irão comprometer seus próprios valores na esperança de receber recursos ou equipamentos. Mas com mais frequência, parceiros locais que confiam em você serão francos, honestos e estarão dispostos a ajudá-lo. Outro problema comum é aquele que chamo de síndrome dos "pais divorciados", onde organizações não governamentais, doadores e parceiros não estão em sintonia e nem envolvidos com o beneficiário. Beneficiários espertos e mal-intencionados conseguem boas recompensas ao permitir que organizações não governamentais e doadores forneçam-lhes equipamentos, informação e recursos financeiros. É importante saber quais são as outras organizações envolvidas para que você entenda as suas actividades e a forma como elas podem impactá-lo. Por exemplo, um projecto para uma escola rural em Mali.


A equipa instalou um sistema de código aberto em computadores usados e passou vários dias ensinado as pessoas sobre a utilização. O projecto estava marcado para o sucesso, mas logo após a instalação apareceu um outro doador com computadores Pentium 4 novos, executando Windows XP. Os estudantes rapidamente abandonaram os computadores velhos e passaram a usar os novos. Teria sido muito melhor negociar antecipadamente com a escola, descobrindo seu compromisso real com o projecto. Caso eles agissem com honestidade, os computadores que agora estão sem uso poderiam ter sido instalados noutra escola onde poderiam ser bem aproveitados. Em muitas comunidades rurais, em economias subdesenvolvidas, a lei e a política são fracas e os contratos podem não ter relevância alguma. Com frequência, outras garantias devem ser descobertas. Nestes casos, serviços pré-pagos são a melhor opção, já que não necessitam de um acordo legal. O compromisso é garantido pelo investimento prévio nos serviços que serão fornecidos.


O comprometimento também requer o investimento daqueles envolvidos no projecto. Não há mal em pedir por alguma reciprocidade financeira aos membros da comunidade. Acima de tudo, a opção válida de não se iniciar o projecto deve ser levada em conta. Caso não exista um aliado local ou a comunidade não esteja comprometida, o melhor é considerar uma outra comunidade ou beneficiário. Uma negociação sempre é necessária, equipamentos, dinheiro e preparação não podem ser considerados como "presentes". A comunidade deve estar envolvida e também deve contribuir.

Quebrando barreiras com uma bridge simples em Timbuktu

Redes devem, em seu mais importante propósito, ligar pessoas. Isto implica em um componente político. O custo da internet em economias pouco desenvolvidas é alto e a capacidade de pagar por ele é baixa, implicando em desafios políticos. De nada adianta a imposição de uma rede digital onde uma rede "humana" não funciona. Tentar fazer isto pode colocar o projecto numa base social instável, ameaçando sua existência ou continuidade. Neste caso, o baixo custo e a mobilidade de uma rede sem fio podem ser uma vantagem. Os investidores pediram à equipa do autor que definisse como ligar uma estação de rádio rural com um telecentro muito pequeno (dois computadores) à internet em Timbuktu, a capital do deserto de Mali. Timbuktu é bastante conhecida como um posto comercial na mais remota área do mundo. Neste local, a equipa decidiu implementar um modelo que foi então chamado de modelo wireless parasítico.


Este modelo pega uma alimentação wireless que é dividida de uma rede existente e estende a rede a uma localidade cliente usando uma simples bridge. Este modelo foi escolhido por não exigir nenhum investimento significativo da organização de manutenção. Mesmo acrescentando uma fonte de renda ao telecentro, isto não trouxe nenhum custo operacional adicional. Com esta solução, a localidade cliente pôde obter um acesso barato à internet, ainda que não tão rápido ou confiável quanto o de uma solução dedicada. Já que os padrões de uso eram opostos entre o escritório e o telecentro, não foi percebida nenhuma queda de velocidade da rede em nenhuma localidade. Mesmo que uma solução ideal pudesse ser melhor para encorajar um maior desenvolvimento do pequeno telecentro, transformando-o em um provedor de acesso, nem o telecentro ou mesmo o mercado local estavam preparados para isto naquele momento. Desta forma, a solução adoptada minimizou o investimento inicial ao mesmo tempo em que atingiu dois objectivos: o primeiro foi levar à internet ao beneficiário, uma estação de rádio, com baixo custo; o segundo, adicionar uma fonte adicional de recursos para o telecentro, sem a adição de custos operacionais ou aumento de complexidade ao sistema.

As pessoas em Timbuktu

Mesmo com renome mundial, Timbuktu é uma localidade remota. Sendo um símbolo de local distante, muitos projectos querem ter uma bandeira nas areias desta cidade no deserto. Assim, há um bom número de actividades de tecnologia de informação e comunicação (TIC) neste local. Na mais recente verificação existiam oito ligações via satélite em Timbuktu, a maioria atendendo a interesses especiais, excepto por duas delas SOTELMA e Ikatel. Elas actualmente usam VSAT para ligar suas redes telefónicas ao resto do país. Este telecentro utilizava uma ligação X.25 para uma destas empresas de telefonia, que então levava a ligação até a cidade de Bamako. Com relação a outras cidades do país, Timbuktu tem um bom número de pessoas treinadas em informática, três telecentros, mais o recém instalado na estação de rádio. A cidade está, de certo modo, saturada com acessos à internet de baixo custo, o que dificulta a implantação de novas ofertas competitivas.

Escolhas de projecto em Timbuktu

Nesta instalação, a localidade do cliente estava a apenas 1 km de distância, com linha de visão directa. Dois APs linksys, utilizando o firmware OpenWRT e configurados em modo bridge foram instalados. Um foi colocado na parede do telecentro e o outro em uma altura de 5 metros, no mastro da estação de rádio. Os únicos parâmetros de configuração necessários em ambos os dispositivos foram o SSID e o canal. Duas antenas simples de painel, de 14 dBi (de http://hyperlinktech.com/) foram utilizadas. No lado da internet, os APs e a antena foram presos com gesso e parafusos ao lado do prédio, apontando para a localidade cliente. Do lado do cliente, um mastro de antena já existente foi utilizado. O access point e a antena foram montados com anéis de canos.


Para desligar o cliente, o telecentro simplesmente desliga a bridge local. Uma localidade adicional poderá, eventualmente, ser instalada de forma similar, com uma nova bridge. Assim, o pessoal do telecentro pode desligar a bridge caso o cliente não pague a mensalidade. Mesmo bastante crua, esta solução é efectiva e reduz o risco de erros que poderiam ser introduzidos caso fossem necessárias reconfigurações de sistema. Ter uma bridge dedicada à uma ligação também simplificou a instalação da localidade central, já que a equipe de instalação pode escolher o melhor local para a ligação com os clientes. Mesmo não sendo o ideal criar bridges numa rede (a não ser para rotear o tráfego de rede), quando não há muito conhecimento técnico e é necessário instalar apenas um sistema muito simples, esta pode ser uma solução razoável para redes pequenas. A bridge faz com que sistemas instalados em locais remotos (à estação de rádio) pareçam estar ligados à rede local.

Modelo financeiro em Timbuktu

O modelo financeiro aqui é simples. O telecentro cobra uma tarifa mensal de cerca de 30 euros por computador ligado à estação de rádio. Isto é muito mais barato que outras alternativas. O telecentro está localizado na corte da prefeitura e os funcionários dela são os principais clientes do mesmo. Isto foi importante porque a estação de rádio não queria competir por clientes com o telecentro e os sistemas da estação de rádio são para o uso exclusivo de seus funcionários. Esta bridge reduziu custos, já que esta base selectiva de clientes poderia suportar o custo da internet sem competir com o telecentro, seu fornecedor. O telecentro pode facilmente desligar a estação de rádio na eventual falta de pagamento. Este modelo também permitiu a partilha dos recursos da rede. Por exemplo, a estação de rádio possui uma impressora à laser nova, enquanto o telecentro tem uma impressora colorida. Como os clientes estão na mesma rede, as impressoras de ambas as localidades podem ser utilizadas.

Aprendizagem em Timbuktu

Para o suporte a esta rede foi necessário muito pouca ajuda. Mostrou-se ao pessoal do telecentro como instalar o equipamento, assim como técnicas básicas de diagnóstico, como a reinicialização dos ponto de acesso wireless e a substituição no caso de falhas. Isto possibilita à equipa do autor simplesmente enviar a peça de substituição, economizando os dois dias de viagem a Timbuktu.

Sumário em Timbuktu

A instalação foi considerada como uma medida temporária, até que seja possível a implantação de uma solução mais completa. Foi um sucesso no sentido em que não foi necessário investimento na construção de infra-estrutura física adicional. Além de levar a estrutura de TIC para a estação de rádio, ela reforçou os relacionamentos entre clientes e fornecedores. Ainda hoje, o acesso à internet é uma tarefa cara em Timbukti. A política local e iniciativas subsidiadas estão a mudar isto, mas esta simples solução provou ser ideal para o caso. A equipe levou vários meses entre análise e pensamento crítico para chegar a ela, mas ao final, concluiu-se que a solução mais simples foi a que trouxe o maior benefício.

Solidez em Gao

Num dia de viagem ao leste de Timbuktu, em Mali Ocidental, está a cidade de Gao. Esta cidade rural que mais se parece com uma grande vila, está na beira do rio Niger, um pouco antes dele virar ao sul em direcção à Nigéria. A cidade espalha-se suavemente à margem do rio e tem poucos prédios maiores que dois andares. Em 2004, um telecentro foi instalado em Gao. O objectivo do projecto era fornecer informação à comunidade na esperança de que uma comunidade informada produziria cidadãos mais saudáveis e educados. O centro fornecia informações através de CD-ROMs, filmes e rádio, mas a principal fonte de informação para o centro é a internet. É um telecentro padrão, com 8 computadores, uma impressora multi-funcional (incluindo scanner e fax), um telefone e uma câmara digital. Um pequeno prédio de dois andares foi construído para acomodar o telecentro.


Está localizado um pouco fora do centro da cidade, o que não é um local ideal para atrair clientes, mas foi escolhido em função de seu simpático anfitrião. O local recebeu investimento para toda a construção necessária, assim como para o equipamento e aprendizagem inicial. A expectativa de que o telecentro se tornasse auto- sustentável era de um ano. Muitos meses depois de sua abertura, o telecentro atraía apenas poucos clientes. Usava-se um modem para a a ligação à internet na capital. A ligação era muito lenta e pouco confiável e assim o patrocinador forneceu a instalação de um sistema VSAT. Há um bom número de sistemas VSAT hoje disponíveis na região, sendo que a maioria deles entrou em produção recentemente. Anteriormente, apenas sistemas de banda C (que cobre uma área maior que a banda Ku) estavam disponíveis. Recentemente, fibras ópticas foram instaladas em praticamente todos os túneis de metro e canais através da europa e assim substituíram os serviços via satélite mais caros.


Como resultado, os fornecedores estão agora redireccionando seus serviços de VSAT para novos mercados, incluindo a África Central e Ocidental e o sul da Ásia. Isto levou a vários projectos que usam sistemas de satélite para a ligação à Internet. Depois que o VSAT foi instalado, a ligação forneceu 128 kbps para a recepção e 64 kbps para a transmissão, ao custo de cerca de 400 euros ao mês. A localidade estava tendo dificuldades para receber o suficiente para pagar este alto custo mensal e o telecentro pediu ajuda. Um consultor local, que havia sido preparado pelo autor pra instalar sistemas wireless, foi contratado. O sistema iria dividir a ligação entre três clientes; um segundo beneficiário, uma estação de rádio e o telecentro, cada um pagando 140 euros. A parceria colectiva cobriu os custos do VSAT e o aluguer extra do telecentro e da estação de rádio cobriram o suporte e a administração do sistema.

As pessoas em Gao

Mesmo tendo capacidade e vontade, a equipe do autor não fez a instalação. Ao invés disto, encorajamos o telecentro a contratar um consultor local para fazer isto. Tranquilizamos o cliente concordando em treinar e dar suporte ao consultor durante a instalação. A razão deste procedimento foi desencorajar a dependência e ao mesmo tempo ajudar a construir relações de confiança entre os prestadores de serviços locais e seus clientes. A decisão acabou provando-se frutífera, mesmo tomando bastante tempo da equipe do autor talvez o dobro do tempo que normalmente levaria mas o investimento já começou a se pagar. As redes continuam a ser instaladas e o autor e sua equipa já estão de volta a seus lares na europa e América do Norte.

Escolhas de projecto em Gao

A ideia inicial era a de que a ligação à internet seria feita directamente na estação de rádio, que já possuía uma torre de 25 metros. Esta torre seria usada para a transmissão aos demais clientes, evitando a necessidade de se instalar outras torres nas localidades dos clientes, já que ela estava bastante acima de qualquer obstáculo na cidade. Para se fazer isto, três opções foram discutidas; a instalação de um access point em modo repetidor, usando o protocolo WSD ou usando um protocolo mesh de roteamento. Um repetidor não era desejável, já que ele introduziria latência (devido ao problema do repetidor de um só braço) a uma ligação que já era lenta. ligações VSAT necessitam enviar os pacotes até o satélite e recebê-los novamente, introduzindo até 3000 ms de atraso para a viagem de ida e volta. Para evitar este problema, decidiu-se por usar um rádio para ligar aos clientes e um segundo rádio para a ligação à internet. Para tornar as coisas mais simples, este link seria uma bridge simples, de forma que o access point na estação de rádio pareceria estar na mesma LAN física do telecentro.


Em testes esta opção funcionou mas, no mundo real, seu desempenho era muito mau. Depois de muitas mudanças, incluindo a troca dos APs, o técnico decidiu que deveria haver algum problema de software ou hardware afectando o projecto. O instalador decidiu, então, colocar o access point directamente no telecentro, usando um pequeno mastro de 3 metros e não mais usando a transmissão a partir da estação de rádio. Com isto, as demais localidades clientes também precisaram de pequenos mastros. Todos os locais puderam ser ligados, apesar da ligação ser algumas vezes muito má, introduzindo grande perda de pacotes. Mais tarde, durante a temporada de poeira, estas ligações tornaram-se mais erráticas e ainda menos estáveis. Os clientes estavam distantes entre 2 e 5 km, usando 802.11b. A teoria da equipa era a de que as torres estavam muito baixas em todos os locais, cortando muito da zona Fresnel.


Depois de discutir muitas teorias, a equipa também descobriu o problema com o desempenho na estação de rádio; a frequência de rádio de 90,0 MHz era mais ou menos a mesma que a da ligação Ethernet (100BT) de alta velocidade. Durante a transmissão, o sinal de FM (a 500 watts) estava consumindo completamente o sinal no cabo Ethernet. Assim, um cabo blindado seria necessário ou a frequência do link Ethernet deveria ser mudada. Os mastros foram aumentados e, na estação de rádio, a velocidade da Ethernet foi mudada para 10 Mbps. Isto mudou a frequência no fio para 20 MHz, evitando a interferência da transmissão de FM. Estas mudanças resolveram ambos os problemas, aumentando a força e a estabilidade da rede. A vantagem de usar mesh ou WDS seria a de que os clientes poderiam ligar-se a qualquer access point, directamente ao telecentro ou à estação de rádio. Eventualmente, a remoção do repetidor na estação tornou a instalação mais estável ao longo do tempo.

Modelo financeiro em Gao

O sistema de satélite utilizado custou aproximadamente 400 euros ao mês. Em muitos casos de desenvolvimento de estruturas de TI, este é um custo mensal difícil de administrar. Muitas vezes, estes projectos podem arcar com a compra de equipamentos e o estabelecimento da rede sem fio, mas não têm a capacidade de pagar pelo custo da rede após um curto período de tempo (incluindo as taxas recorrentes de acesso à internet e custos operacionais). É necessário encontrar um modelo onde os custos mensais da rede podem ser divididos entre aqueles que a utilizam. Para muitos telecentros comunitários ou estações de rádio, o custo é simplesmente muito alto. Para tornar a internet mais viável, este local utilizou a rede wireless para partilhar a internet com a comunidade, permitindo o acesso de um maior número de organizações e minimizando o custo por cliente.


Em Mali, a comunidade rural tem apenas algumas poucas organizações ou empresas que poderiam pagar por uma ligação à internet. Onde há poucos clientes e o custo de acesso à internet é alto, o modelo desenvolvido pela equipe incluiu clientes âncora; clientes sólidos e de baixo risco. Para esta região, organizações não governamentais estrangeiras, as agências das Nações Unidas e grandes empresas comerciais então entre os muito poucos que se qualificam como âncoras. Dentre os clientes seleccionados para este projecto, três eram clientes âncora que colectivamente pagaram o custo total mensal para a ligação via satélite. Um segundo beneficiário, uma estação de rádio comunitária, também foi ligada. Todo o lucro vindo dos beneficiários contribuiu para um depósito para custos futuros, mas não foi contabilizado em função das pequenas margens com as quais os serviços comunitários operavam. Estes clientes podem ser desligados e religados, de acordo com sua possibilidade de arcar ou não com os custos.

Aprendizagem em Gao - Quem, o quê, por quanto tempo

O consultor contratado ensinou ao técnico do telecentro o básico para o suporte à rede, o que foi bastante rudimentar. Qualquer tarefa fora da rotina, como a adição de um novo cliente, era contratada externamente. Desta forma, não era imperativo treinar a equipa do telecentro em como dar o total suporte ao sistema.

Lições aprendidas

Com a partilha da ligação, o telecentro é agora auto-sustentável e, além disso, três outras localidades têm acesso à internet. Mesmo tendo levado mais tempo e, talvez, custado mais, é de grande valor encontrar talentos locais e encorajá-los a construir relacionamentos com os clientes. Um implementador local será capaz de fornecer o suporte posterior, necessário para a manutenção e expansão da rede. Esta actividade está a construir conhecimento local e procura, o que permitirá novos projectos de TIC a partir desta base.

Rede wireless comunitária da Fundação

Fantsuam

Kafanchan é uma comunidade de 83.000 pessoas localizada a 200 km ao noroeste de Abuja, na região central da Nigéria. A cidade costumava ser conhecida como um local movimentado e em crescimento, já que sediava uma das principais junções da ferrovia nacional. Quando a indústria ferroviária estava em crescimento, cerca de 80% da população de Kafanchan estava ligada, de alguma maneira, a esta indústria. Após a falência completa do sistema ferroviário da Nigéria, a população de Kafanchan foi forçada a voltar à sua fonte original de receita, a agricultura. Kafanchan é uma área pobre em ligações, tanto em termos de telefonia fixa como de internet. Hoje, nenhum tipo de telefonia fixa está disponível na área e o GSM foi introduzido apenas em 2005. Ainda assim, a cobertura do GSM é tão má quanto a qualidade do serviço. No momento, mensagens SMS são a forma de comunicação mais confiável, já que as conversações com voz tendem a ser cortadas pela metade e sofrem com muito ruído.


O mau acesso à electricidade traz ainda mais desafios ao povo de Kafanchan. A companhia eléctrica nacional da Nigéria, chamada NEPA (National Electric Power Authority) é mais conhecida aos nigerianos como "Never Expect Power Always" (nunca espere a energia sempre disponível). Em 2005, a NEPA trocou seu nome para PHCN (Power Holding Company of Nigeria). Kafanchan está a receber energia eléctrica da NEPA em uma média de 3 horas por dia. Nas 21 horas restantes a população utiliza caros geradores a diesel e querosene para a iluminação e cozinha. Quando a energia da NEPA está disponível, ela fornece uma voltagem não regulada entre 100 e 120 Volts em um sistema projectado para 240 V. Esta voltagem deve ser regulada para 240 V antes que a maioria das cargas possam ser ligadas. Apenas lâmpadas incandescentes podem ser ligadas directamente à energia, já que podem lidar com a baixa voltagem se maiores danos.

Participantes do projecto

Dado o cenário desafiante de Kafanchan, como alguém poderia ter a ideia de estabelecer o primeiro fornecedor rural de acesso sem fio à internet na Nigéria, justamente na cidade? A Fundação Fantsuam teve esta ideia e a tornou realidade.


A Fundação Fantsuam é uma organização local, não governamental, que tem trabalhado com a comunidade de Kafanchan desde 1996 no combate à pobreza e desvantagens através de programas integrados de desenvolvimento. O foco da Fantsuam está em micro-finanças, serviços de TIC e desenvolvimento social nas comunidades rurais da Nigéria. Tornar-se o primeiro provedor rural de acesso sem fio à internet era parte de sua missão para ser reconhecida como líder no fornecimento de iniciativas de desenvolvimento rural, assim como a organização que mais promove a economia de conhecimento rural no país.


O fornecedor wireless da Fundação Fantsuam, conhecido como Zittnet, é mantido financeiramente pelo IDRC (International Development Research Centre of Canada - Centro de Pesquisa e Desenvolvimento Internacional do Canadá). IT +46, uma empresa de consultaria sueca com foco em TIC para o desenvolvimento, trabalhou junto com a equipe do Zittnet para fornecer o suporte técnico às comunicações wireless, gestão da largura de banda, energia solar, sistemas de reserva de energia e serviços de VoIP.

Objectivos

O principal objectivo do Zittnet é melhorar o acesso à comunicações na área de Kafanchan, implementando uma rede de comunicações sem fio. A rede fornece acesso à intranet e internet para os parceiros locais na comunidade. A rede comunitária é formada por organizações com base na comunidade, como instituições educacionais, instituições religiosas, serviços de saúde, pequenas empresas e indivíduos.

Sistema de reserva de energia

A fim de fornecer um serviço confiável à comunidade, o Zittnet precisava ser equipado com um sistema de reserva de energia estável, capaz de fazer com que a rede funcionasse independentemente da NEPA. Um sistema híbrido de energia foi projectado para a Fantsuam, consistindo em bancos de baterias de ciclo profundo e painéis solares de 2 kW (pico). O sistema pode ser carregado a partir de três fontes diferentes; um gerador a diesel, uma matriz solar e a NEPA, quando a eletricidade está disponível. O centro de operações da rede é alimentado totalmente a partir da energia solar. O resto das instalações da Fantsuam utiliza a energia da NEPA ou do gerador, através do banco de baterias que fornece voltagem estável e ininterrupta. As cargas do centro de operações estão separadas das demais cargas da Fantsuam para assegurar uma fonte de confiança de energia para a infra-estrutura crítica do centro, mesmo quando o banco de baterias estiver funcionando com potência baixa.

Simulações com os melhores dados sobre a irradiação solar revelaram que o estado de Kaduna, onde Kafanchan está localizada, recebe ao menos 4 horas de pico de sol durante os piores meses, que vão de Junho a Agosto (a temporada das chuvas). Cada painel solar (Suntech, 80 W no pico) fornece um máximo de 5 A de corrente (quando a irradiação solar está em seu máximo durante o dia). Nos piores meses do ano, a expectativa de produção não é menor que 6 Kwh/dia. O sistema solar foi projectado para fornecer saídas de 12 e 24 V DC a fim de casar com a voltagem de entrada de todos os servidores de baixa potência e estações de trabalho para a infra-estrutura do centro de operações e das salas de aprendizagem. Os painéis solares usados são os Suntech STP080S-12/Bb-1, com as seguintes especificações:


  • Voltagem de circuito aberto (VOC): 21.6 V
  • Voltagem operacional ótima (V): 17.2 V
  • Corrente de curto circuito (I ): 5 A
  • Corrente operacional ótima (I ): 4.65 A
  • Potência máxima em STC (PMAX): 80 W (Pico)


O mínimo de 6 Kwh/dia que alimenta o centro de operações é usado para alimentar os seguintes equipamentos:

O consumo de potência dos servidores e telas de LCD está baseado nos dados fornecidos por Inveneo's Low Power Computing Station. A estimativa de consumo total do centro de operações, que é menor do que a energia gerada pelo painel solar no pior mês, é de 5,6 kWh/dia.

Centro de Operações da Rede

NOC - (Network Operating Center) Um novo centro de operações foi criado para alojar o sistema de reserva de energia e a sala de servidores. O centro foi projectado para prover um lugar protegido contra poeira, com boa qualidade de refrigeração para as baterias e inversores. O centro usa métodos naturais e foi construído com materiais disponíveis localmente. O prédio compreende quatro salas. Uma sala para o armazenamento das baterias, uma para o servidor, uma área de trabalho e outra para o estoque de equipamentos. A sala de armazenamento de baterias contém 70 baterias de 200 Ah de ciclo profundo, assim como cinco inversores (um deles de onda senoidal pura), dois reguladores solares, estabilizadores de potência e disjuntores DC e AC. As baterias estão empilhadas verticalmente em uma prateleira metálica para o melhor resfriamento.

O espaço do servidor acomoda um rack para os servidores e um ventilador. A sala não possui janelas regulares, para evitar a poeira e o super aquecimento. As salas do servidor e das baterias estão de frente para o sul, a fim de aumentar o resfriamento natural e as manter com uma temperatura apropriada. Estas salas necessitam de um resfriamento eficaz, de baixo custo e baixo consumo de energia, já que precisam funcionar ininterruptamente. Para atingir este objectivo, técnicas de resfriamento natural foram introduzidas no projecto do centro de operações; pequenos ventiladores e exaustores e paredes duplas de tijolos na direcção do pôr do sol.


O lado sul da construção contém os 24 painéis solares em uma área livre de sombras em seu tecto metálico. O tecto foi projectado com uma inclinação de 20 graus para a montagem dos painéis, limitando a corrosão e a poeira. Esforços extras foram feitos para manter os painéis facilmente acessíveis para a limpeza e manutenção. O tecto também foi fortalecido a fim de poder suportar um peso extra de 150 a 200 kg. O prédio do centro de operações foi construído com tijolos de barro produzidos localmente, de forma manual, utilizando uma técnica de baixa pressão. O material é barato, já que é frequentemente utilizado e vem da parte de cima do solo. O centro de operações é o único deste tipo no estado de Kaduna.

Infra-estrutura física

Muitos clientes potenciais do Zittnet estão localizados entre 1 e 10 km das instalações da Fantsuam. A fim de atingir estes clientes, a Fantsuam montou uma torre de comunicações nas suas instalações. Em Outubro de 2006, uma torre de 45 m auto-sustentável foi instalada na Fundação Fantsuam. A torre foi equipada com aterramento e protecção contra raios, assim como uma luz sinalizadora obrigatória. Um anel de metal foi enterrado na base da torre, a uma profundidade de 1,22 m. Todas as três pernas da torre foram ligadas ao circuito de aterramento. Um pára-raios foi montado no ponto mais alto da torre para a protecção do equipamento contra tempestades eléctricas. Este pára-raios é feito de puro cobre e está ligado no anel de aterramento na base da torre com o uso de uma cinta de cobre. A luz de sinalização montada no topo da torre é um requerimento das autoridades de aviação civil e está equipada com uma foto célula que faz com que ela ligue e desligue automaticamente, de acordo com a iluminação ambiente. Assim, a luz é ligada à noite e desligada durante o dia.

Infra-estrutura wireless

A infra-estrutura wireless é feita com o uso de APs multi-banda SmartBridges e unidades clientes da série Nexus PROTM TOTAL. Estas unidades são projectadas para fornecedores de internet de serviços e empresas, a fim de estabelecer um alto desempenho em links wireless ponto-a-multiponto externos. Elas possuem uma antena multi-setorial, multi-banda integrada que pode funcionar nas frequências de 2,4 GHz e 5,1 a 5,8 GHz. A série Nexus PROTM TOTAL oferece QoS para a priorização do tráfego e gestão de largura de banda por cliente usando as extensões compatíveis com o padrão WMM (WiFi Multimedia) do IEEE 802.11e.


Actualmente, a topologia da rede é uma estrela, com dois APs na torre de comunicações das instalações da Fantsuam. Um access point possui uma antena sectorial de 90 graus (linhas pontilhadas azuis) e o outro access point fornece cobertura omnidirecional para as áreas vizinhas (anel pontilhado vermelho). Os clientes localizados dentro da área entre as linhas pontilhadas azuis são atendidos pela antena sectorial, enquanto os demais são ligados à antena omnidirecional. Há planos para a expansão da oferta da rede com a colocação de dois repetidores wireless. Um repetidor será colocado na cidade de Kafanchan usando uma torre existente da NITEL para ampliar a cobertura da rede no centro da cidade. O segundo repetidor será colocado em Kagoro Hills, um pequeno grupo de montanhas com altitude de 500 m em relação a Kafanchan e localizado a cerca de 7 km da cidade. Este repetidor irá fornecer cobertura para muitas cidades vizinhas e pode tornar viável um link de longa distância para Abuja.

O Zittnet ligou seu primeiro cliente no início de Agosto de 2007. Dois meses mais tarde, não menos que oito clientes estavam ligados. Estes clientes incluem:


Problemas encontrados

Algumas áreas problemáticas que estavam constantemente presentes durante todo o projeto estão listadas a seguir.

Construções baixas

Muitas instalações de clientes estão localizadas em prédios de apenas um andar, com uma altura não maior que 3 metros. Muitas casas têm telhados com estruturas fracas, impedindo a montagem do equipamento neles, já que o acesso físico é impossível. Os prédios baixos nos forçaram a montar os equipamentos em alturas bastante baixas, já que os clientes não tinham recursos para investir em pequenos mastros (10 m) para a instalação do equipamento. Muitas instalações foram feitas em caixas de água ou em um poste metálico de 3 metros montado na parede do prédio. Quando a montagem do equipamento é baixa, a primeira zona Fresnel não está livre, resultando numa baixa velocidade da ligação. Mesmo que o cenário de Kafanchan seja bastante plano, a vegetação, composta por mangueiras grossas, facilmente se bloqueia a linha de visão.

Raios

Tempestades fortes são frequentes durante a estação de chuvas de Kafanchan. Em Setembro de 2007, um raio que caiu nas proximidades danificou o equipamento montado em um mastro, assim como a sua fonte de alimentação. No momento, o access point e seu injector PoE estão aterrados à própria torre. Novos meios devem ser investigados para prevenir danos causados por raios que caiam nas proximidades. A equipe do Zittnet está actualmente trabalhando na melhoria da protecção contra surtos, adicionando novos supressores coaxiais de surtos. Além disto, a blindagem do cabo UTP que liga o access point ao centro de operações será aterrada com o uso de blocos de aterramento e braçadeiras.

Equipamentos de baixa qualidade

Infelizmente, a falta de qualidade em produtos no mercado é um problema espalhado em todo o continente africano. Como a maioria dos países abaixo do deserto do Sahara não possuem políticas para a garantia de qualidade para mercadorias importadas, o mercado é inundado por artigos baratos e de baixíssima qualidade. Uma vez que produtos de qualidade são difíceis de serem encontrados, acaba-se comprando mercadorias localmente disponíveis que quebram mesmo antes de entrar em operação. Como não há nenhuma garantia para estas pequenas compras, isto se torna muito caro. Este problema está quase sempre presente em acessórios comuns como tomadas eléctricas, réguas de alimentação, fichas RJ45, cabos CAT5 e outros equipamentos de pouca tecnologia.

Modelo de negócios

A única alternativa para o acesso à internet em Kafanchan é via satélite. Durante 2006, a Fantsuam tinha uma assinatura de um link dedicado de 128/64 kbps a um custo de 1.800 euros mensais. Este altíssimo custo mensal de ligação era um grande fardo para a Fantsuam e um motivo constante de stress para o cancelamento mensal das contas. Como alternativa ao modelo de taxa fixa, de alto risco, a Fantsuam implementou um sistema chamado HookMeUp, fornecido pela Koochi Communications. O sistema oferece taxas flexíveis para o pagamento por uso de banda larga em ligações VSAT para a internet em países de toda a África ao sul do Sahara. Este tipo de modelo de acesso é tipicamente encontrado em aeroportos, hotéis ou grandes centros comerciais em países ocidentais, onde os utilizadores compram cartões pré-pagos online e fazem o login no sistema usando um código de acesso.


O sistema HookMeUp oferece uma ligações VSAT dedicada, de 512/256 Kbps para Fantsuam (a partir de sua estação-base no Reino Unido). A Fantsuam compra os créditos da Koochi Communications e os revende a seus clientes locais em Kafanchan. Desta forma, a Fantsuam não mais está presa a um custo mensal fixo, tendo apenas que pagar para a Koochi a banda que realmente utilizou. O risco de aquisição de largura de banda internacional, cara, foi transferido para o fornecedor de internet ao custo de um maior preço para o utilizador final. A Fundação Fantsuam agora funciona como uma revenda de créditos da Koochi e como fornecedora da infra-estrutura wireless para seus utilizadores. A Wireless Community Network (Rede Comunitária Wireless) agora garante à Fantsuam cinco fontes de rendimento:


  • Instalação de equipamento no local do cliente (uma vez a cada cliente)
  • Aluguer de equipamento wireless (custo mensal por cliente)
  • Revenda de equipamento wireless (uma vez a cada cliente)
  • Instalação de um ponto de acesso wireless (hotspot) no local do cliente (uma vez a cada cliente)
  • Revenda de créditos (continuamente)


O sistema de créditos é baseado em três parâmetros tempo de acesso, limite de dados e tempo de validade. O primeiro parâmetro que se esgotar primeiro invalidará o crédito.

A maior vantagem deste sistema é que a Fantsuam Foundation não tem mais o fardo da alta conta mensal para a ligação internacional. A manutenção de um modelo de custo fixo implica em que você seja forçado a vender uma certa quantidade de banda a cada mês. Com modelos do tipo "pague enquanto usa", o lucro da Fantsuam na venda de créditos depende de quanta banda seus clientes consomem. Os clientes pagam antecipadamente (modelo pré-pago) e o resultado disto é que a Fantsuam nunca fica em débito com o fornecedor. O modelo pré-pago funciona bem na África, já que as pessoas estão acostumadas a utilizá-lo em telefonia móvel e é até utilizado por empresas de energia eléctrica em alguns países. As pessoas costumam gostar deste modelo pois ele auxilia no controle de suas despesas.


Uma das principais limitações do modelo é sua falta de flexibilidade e transparência. O modelo actual fornece pouca informação ao utilizador sobre seu consumo de tempo e volume de dados. Apenas quando o utilizador é desligado é que é informado sobre quantos minutos ainda estão disponíveis para seu uso. Mesmo assim, este modelo parece encaixar-se bem à realidade local de Kafanchan e muitas outras comunidades rurais da África também. Existe espaço para a melhoria, mas a vantagem de evitar dívidas é muito superior às desvantagens. Com o tempo, o número de clientes foi aumentando e eles hoje podem contar com uma entrada substancial de recursos vindos da rede wireless, podendo ser vantagem voltar novamente ao sistema de taxa mensal fixa.

Clientes

Os clientes podem usar a internet para qualquer propósito. Por exemplo, Isaiah Balat revende créditos (comprados da Fantsuam) para seus clientes. o Seu serviço de internet café possui dez computadores, todos ligados ao Zittnet. Os clientes compram os créditos do proprietário que tem uma margem de lucro de 25% sobre o preço oferecido pela Fantsuam. Em retorno, os clientes que não possuam um computador ligado à internet podem acessar à rede nos que são oferecidos pelo Café Isaiah Balat. O New World Hotel é outro cliente que planeia criar um modelo similar, mas em maior escala. Eles irão fornecer acesso sem fio à internet em todos os seus apartamentos, oferecendo a ligação do Zittnet através da revenda de créditos.

A cruzada pela Internet de baixo custo na zona rural de Mali

Por muitos anos, a comunidade internacional de desenvolvimento tem promovido a ideia da eliminação da barreira digital, este abismo invisível que foi formado para a riqueza de acesso às tecnologias de informação e comunicação (TIC) entre os países desenvolvidos e em desenvolvimento. Ferramentas de acesso à informação e comunicações causam um impacto dramático na qualidade de vida. Para muitos doadores, fatigados por décadas de suporte a actividades tradicionais de desenvolvimento, a instalação de um telecentro num país em desenvolvimento parece ser um trabalho possível e válido. Em função de uma infra-estrutura inexistente, é muito mais cara e difícil a realização desta tarefa no mundo em desenvolvimento do que no Ocidente. Além disto, existem poucos modelos que mostram como estas actividades podem ser suportadas. Para ajudar a minimizar alguns dos custos de levar a internet para áreas rurais do mundo desenvolvido, a equipa do autor tem promovido o uso de sistemas wireless para compartilhar o custo de uma ligação à internet.


Em Novembro de 2004, um projecto afiliado pediu que a equipa do autor implantasse um sistema deste tipo em um telecentro recentemente instalado na região rural de Mali, oito horas ao sudoeste de Bamako, a capital, em um veículo de tracção nas quatro rodas. A cidade rural, localizada à margem de uma reserva construída pelo homem, armazena água do manancial Manitali que gera energia para um terço do país. Esta região é afortunada, já que a energia hidroeléctrica é mais estável e disponível que a gerada com diesel. Mas mesmo que a energia de geradores a diesel seja muito menos estável, algumas comunidades rurais tem sorte de, ao menos, receber algum tipo de energia. A cidade é também dotada de uma das regiões mais férteis do país, em seu cinturão de algodão, a principal geração de renda em colheitas de Mali. Acreditava-se que esta região seria a de maior dificuldade para a instalação de um telecentro auto-sustentável. Como em muitos experimentos-piloto, esta instalação constituiu-se de muitos desafios.


Tecnologicamente, a tarefa era simples. Em 24 horas a equipa instalou uma rede wireless 802.11b que partilha a ligação VSAT para a internet do telecentro com outros cinco serviços locais; a junta de freguesia o escritório do governo, o serviço de saúde, o conselho distrital e o conselho tutelar da comunidade. Estes clientes foram seleccionados numa viagem de reconhecimento, dois meses antes. Durante esta viagem, a equipa entrevistou clientes em potencial e determinou quais poderiam ser ligados sem a necessidade de instalações caras ou complicadas. O próprio telecentro alojava uma estação de rádio comunitária. Estações de rádio tendem a ser bons lugares para a instalação de redes wireless na zona rural de Mali, já que as mesmas costumam estar bem localizadas, possuem electricidade, segurança e pessoas que entendem ao menos o básico sobre transmissão de rádio.


Elas também são um ponto de encontro natural para uma vila. O provimento de ligação internet a uma estação de rádio melhora a qualidade de informação para seus ouvintes. Para uma cultura que é principalmente oral, o rádio acaba sendo o meio mais eficaz de fornecer informações. Da lista de clientes acima, logo se percebe que todos são organizações governamentais ou para-governamentais. Isto provou ser uma mistura complicada, já que existia considerável animosidade e ressentimento entre os vários níveis de governo, com disputas contínuas a respeito de impostos e outras questões fiscais. Felizmente, o director da estação de rádio, o incentivador da rede, foi bastante dinâmico e capaz de ultrapassar estas questões políticas, mesmo que não completamente.

Escolhas de projecto

A equipe determinou que o ponto de acesso wireless seria instalado a 20 metros de altura, na torre da estação de rádio, logo abaixo dos dipolos de rádio FM, mas não tão alto a ponto de causar interferência para os clientes localizados na depressão, em formato de uma tigela, onde a maioria deles se encontrava. A equipa focou-se então na forma de ligação de cada localidade cliente até este ponto central. Uma antena omnidirecional de 8 dBi da Hyperlinktech, seria suficiente, fornecendo cobertura para as localidades de todos os clientes. A antena de 8 dBi escolhida tem uma largura de feixe de 15 graus na vertical, garantindo que os dois clientes que estariam a menos de um quilómetro de distância ainda receberiam um forte sinal. Algumas antenas têm uma largura de feixe muito estreita, emitindo sinal com intensidade além da necessária para locais das proximidades. Antenas de painel foram consideradas, mesmo que neste caso ao menos duas seriam necessárias em conjunto com um segundo rádio ou um divisor de canal. Isto provou-se desnecessário para esta instalação. Os cálculos a seguir mostram como estimar o ângulo formado entre a antena no local do cliente e a antena na estação base, usando trigonometria.

tan(x) = diferença de altura
+ altura da antena da estação base - altura da antena no cliente / distância entre os locais
tan(x) = 5m + 20m - 3m / 400m x = tan-1 (22m / 400m) x =~ 3 graus

Além do equipamento no telecentro (quatro computadores, uma impressora a laser e um switch de 16 portas), a estação de rádio já possuía uma estação de trabalho linux instalada pelo autor do projecto para a edição de áudio. Um pequeno switch foi instalado na estação de rádio, ligado a um cabo de Ethernet que foi passado por um tubo plástico e enterrado a 5 cm no solo até o telecentro, passando pelo quintal. Do switch principal, dois cabos sobem até o access point Mikrotik RB220. Os RB220 têm duas portas Ethernet, uma para a ligação ao VSAT através de um cabo cross-over e a segunda para a ligação com o switch central da estação de rádio. O RB 220 está acomodado numa de PVC construído manualmente e a antena omnidirecional de 8 dBi está montada directamente no topo da tampa da caixa de PVC.


O RB 220 roda uma versão derivada do linux, a Mikrotik versão 2.8.27 controlando a rede, fornecendo dhcp, firewall e serviços de dns-caching, ao mesmo tempo em que roteia o tráfego para o VSAT usando NAT. O Mikrotik oferece uma poderosa linha de comando e uma interface gráfica completa e relativamente amigável. É um pequeno computador baseado na arquitectura x86, projectado para o uso como access point ou sistema embarcado. Estes APs estão preparados para PoE, têm duas portas Ethernet, uma porta mini-pci, duas entradas para placas PCMCIA, um leitor de memória flash (usado como memória não volátil), toleram variações de temperatura e têm o suporte a uma variedade de sistemas operacionais. Apesar do software Mikrotik exigir licença, já existia uma base de utilizadores substancial em Mali. A interface gráfica poderosa e amigável do sistema provou ser superior a outros produtos. Por causa disto, a equipa concordou em utilizar estes sistemas, incluindo seu software, para o controle destas redes. O custo total do RB 220, com nível de licença 7, Atheros mini-pci 802.11a/b/g e PoE foi de 461 euros.


Esta configuração encontra-se online em http://www.mikrotik.com/routers.php#linx1part0. A rede foi projectada para permitir a expansão através da divisão em várias sub-redes para cada cliente; sub-redes privadas de 24 bits foram alocadas. O AP tem uma interface virtual em cada sub-rede e faz todo o roteamento entre elas, além de permitir a firewall na camada de IP. Isto não fornece um firewall na camada de rede, assim, o uso de um sniffer de rede como o tcpdump irá permitir a visualização de todo o tráfego no link wireless. Para limitar o acesso aos assinantes, a rede usou o controle de acesso pelo endereço MAC. Pouco risco de segurança foi percebido para a rede. Neste primeiro momento, um sistema de segurança mais eficaz foi deixado para a implantação futura, quando seria possível o tempo para encontrar uma interface mais simples para o controle de acesso. Os utilizadores foram encorajados a usar protocolos seguros, como https, pops, imaps, etc. O projecto afiliado instalou um sistema VSAT de banda B (DVB-S). Estes sistemas de satélite são normalmente mais confiáveis e frequentemente utilizados por fornecedores de acesso à internet.


É um equipamento grande e caro, neste caso com um prato parabólico de 2,2 metros de diâmetro, custando aproximadamente 12.000 euros incluindo a instalação e do seu funcionamento também é caro. Um link de recepção de 128 kbps e 64 kbps de transmissão para a internet custa aproximadamente 700 euros ao mês. Este sistema tem muitas vantagens se comparado a um sistema de banda Ku, incluindo um melhor desempenho em condições climáticas más, baixa taxa de contenção (número de utilizadores competindo pelo mesmo serviço) e é mais eficiente no tráfego de dados. A instalação deste VSAT não foi a ideal. Uma vez que o sistema executava Windows, os utilizadores foram capazes de, rapidamente, mudar algumas configurações, incluindo a adição de uma senha para a conta de utilizador padrão. O sistema não tinha um no-break ou uma reserva de energia em baterias, por isso, assim que houve uma queda de energia o sistema reinicializou e ficou aguardando por uma senha que já havia sido esquecida. Para piorar a situação, já que o software do VSAT não foi configurado para executar como um serviço e não se inicializou automaticamente para o restabelecimento do link.


Mesmo que os sistemas de banda C sejam confiáveis, esta instalação causou paradas desnecessárias que poderiam ter sido evitadas com o uso de um no-break, configuração apropriada do software do VSAT como um serviço e com o limite de acesso físico ao modem. Como qualquer proprietário de um novo equipamento, o pessoal da estação de rádio queria exibi-lo, deixando-o bem à mostra. Preferencialmente, um espaço com portas de vidro teria mantido o equipamento visível, mas ainda assim em segurança. O sistema wireless era bastante simples. Todos os clientes seleccionados estavam localizados a uma distância dentro de um raio de 2 km da estação de rádio. Cada localidade possuía uma parte de sua construção através da qual se poderia fisicamente avistar a estação de rádio. No lado do cliente, a equipa optou por utilizar ponto de acesso wireless comerciais comuns, tomando como base principal o seu preço. Foram utilizados equipamentos Powernoc 802.11b CPE bridge com antenas SuperPass de 7 dBi e adaptadores construídos artesanalmente para Power Over Ethernet (PoE). Para facilitar a instalação, o access point e a antena foram montados numa pequena peça de madeira que depois seria instalada do lado de fora do prédio, apontando para a estação de rádio.


Em alguns casos, a peça de madeira era cortada em ângulo para optimizar a posição da antena. Do lado interno, um adaptador PoE feito com um amplificador de sinal de televisão de 12V foi utilizado como fonte de energia para os equipamentos. Nos clientes não existiam redes locais, assim a equipe teve que instalar o cabeamento e hubs apropriados para levar a internet a cada computador. Em alguns casos foi necessária a instalação de placas de Ethernet e seus drivers (o que não havia sido levantado inicialmente no projecto). Como as redes dos clientes eram simples, foi decidido que o mais fácil seria implementar uma bridge entre elas. Caso fosse necessário, a arquitectura IP permitiria o futuro particionamento da rede e o equipamento Powernoc adquirido já tinha o suporte para isto. O custo de cada bridge Powernoc foi de 249 euros. Uma equipa local esteve envolvida durante toda a instalação da rede wireless. Um programa desenvolvido logo após a instalação capacitou a equipe em todos os aspectos da rede, desde o cabeamento até o posicionamento das antenas. Esta formação intensiva durou várias semanas e tentou ensinar à equipa local tudo o que era necessário para o cumprimento diário de suas tarefas, assim como a análise básica de problemas da rede.


Um jovem recém formado que havia regressado à comunidade foi escolhido para dar o suporte ao sistema, com excepção da instalação dos cabos, que ficou à cargo do técnico da estação de rádio. O cabeamento de redes Ethernet é bastante similar aos reparos e instalações de cabos coaxiais com os quais o técnico já estava familiarizado. O jovem recém formado também precisou de pouca dedicação à aprendizagem. A equipa de implantação passou boa parte de seu tempo ensinando-o técnicas de suporte básico para o sistema e o telecentro. Assim que o telecentro foi inaugurado, estudantes entraram para os cursos de informática, que ofereciam estudo e uso da internet por um valor mensal de 40 euros uma pechincha comparada aos 2 euros por hora de acesso à internet. O fornecimento deste curso proporcionou um ganho significativo e foi uma tarefa na qual o jovem formado, apaixonado por computadores, se encaixou muito bem. Infelizmente, mas sem que isto causasse surpresa, o jovem graduado partiu para a capital, Bamako, depois de receber uma oferta para um trabalho no governo. Isto deixou o telecentro órfão visto que o seu membro com maior conhecimento técnico e o único conhecedor para o suporte ao sistema se tinha ido embora.


A maior parte do conhecimento necessário para o trabalho foi com ele. Depois de muitas discussões, a equipa decidiu que o melhor seria não procurar um outro jovem com conhecimento técnico e sim focar-se na equipa local permanente, mesmo que tivessem uma experiência técnica limitada. Isto levou muito mais tempo. Nossa equipa de trabalho teve que retomar para ensinar um total de 150 horas de cursos. Várias pessoas foram ensinadas em cada função e as tarefas do telecentro foram divididas entre todos. Uma vez que os serviços comunitários foram ligados, também se precisava de acesso. Notou-se que, mesmo que estivesse participando do projecto, a equipa directora, incluindo o prefeito, não estava utilizando os sistemas. A equipa deu-se conta da importância de garantir quem toma-se decisões usassem o sistema e assim forneceu um programa de aprendizagem para os mesmos e seus funcionários. Isto removeu, de facto, um pouco do misticismo da rede e fez com que se envolvessem. Passada a aprendizagem, a equipa do projecto ainda monitorizou a localidade e começou a colaborar com ideias, avaliando formas pelas quais este modelo poderia ser melhorado. As lições aprendidas aqui foram aplicadas em outras localidades.

Modelo financeiro

O telecentro comunitário já estava estabelecido num modelo sem fins lucrativos e passou a ser exigido que se tornasse auto-sustentável com a venda de seus serviços. O sistema wireless foi incluído como uma fonte suplementar de receita já que projecções financeiras indicavam que o telecentro não seria capaz, em breve, de pagar pela sua ligação VSAT. Baseado em pesquisa e em consultas à estação de rádio que administrava o telecentro, vários clientes foram seleccionados. A estação de rádio negociou os contratos com alguma ajuda de quem efectuava a manutenção. Para esta primeira fase, os clientes foram seleccionados com base na facilidade de instalação e capacidade de pagamento. Os clientes foram solicitados a pagar uma taxa de assinatura, como descrito adiante. A decisão sobre o quanto deveria ser cobrado foi uma das principais actividades e necessitou de consultarias e conhecimento que a comunidade não possuía nas suas projecções financeiras. O equipamento foi pago com uma doação, para ajudar a diminuir os custos impostos à comunidade, mas os clientes ainda tiveram que pagar uma taxa de assinatura, que serviu para garantir o seu compromisso. A taxa de assinatura era equivalente a um mês da taxa de serviços.

Para determinar o custo mensal de fatias iguais da largura de banda, começamos com a seguinte fórmula:

VSAT + salários + despesas (electricidade, suprimentos) = lucro do telecentro + lucro do cliente wireless

Estimamos que o telecentro deveria receber entre 200 e 300 euros de lucro mensal. As despesas totais foram estimadas em 1050 euros ao mês, assim divididas: 700 euros para o VSAT, US$ 100 euros para salários, 150 euros para electricidade e cerca de 100 euros para suprimentos. Cerca de 750 euros de lucro vindo dos clientes wireless eram necessários para equilibrar a equação. Isto resultou em aproximadamente 150 euros para cada cliente. O valor era tolerável pelos clientes e parecia viável, mas requeria um bom clima e não havia margem para complicações. Uma vez que isto estava tornando-se complicado, trouxemos os especialistas de negócios, que modificaram a fórmula da seguinte maneira:

Despesas mensais + amortização + fundos de segurança = lucro total

Os especialistas de negócios rapidamente nos mostraram a necessidade de amortização do equipamento, ou fundos de reinvestimento assim como fundos de segurança que asseguram que a rede possa continuar na desistência de um cliente ou no caso de quebra de um equipamento. Isto adicionou cerca de 150 euros ao mês para a amortização (equipamentos avaliados em cerca de 300 euros, amortizados em 24 meses) e o valor de um cliente para a eventual falta de pagamentos em 100 euros. Foram adicionados mais 10% para contar com a desvalorização financeira, o que totaliza uma despesa de 1380 euros ao mês. Ao tentar implementar este modelo, foi decidido que a amortização era um conceito muito difícil de ser passado à comunidade e que eles não considerariam que os clientes poderiam falhar seus pagamentos. Assim, ambas as fórmulas foram usadas, a primeira para o telecentro e a segunda para a nossa análise interna.


Como logo foi descoberto, pagamentos regulares não fazem parte da cultura da zona rural de Mali. Numa sociedade agrária, onde tudo é sazonal, o mesmo acontece com a receita financeira. Isto significa que a receita da comunidade flutua bastante. Além disso, como muitas instituições públicas estão envolvidas e têm longos ciclos de orçamento com pouquíssima flexibilidade. Mesmo que eles tivessem, teoricamente, o orçamento para pagar pelo serviço, poderia levar meses até que estes pagamentos fossem feitos. Outras complicações fiscais também surgiram. Por exemplo, o prefeito aprovou e utilizou impostos devidos pela estação de rádio para pagar por sua assinatura. Isto, obviamente, não contribuiu para o fluxo de caixa. Infelizmente, fornecedores de VSAT têm pouca flexibilidade e paciência, já que eles têm uma largura de banda limitada e apenas têm espaço para aqueles que podem pagar. A gestão do fluxo de caixa tornou-se uma grande preocupação. Primeiro porque o lucro previsto nas projecções mostrou que, mesmo com uma visão optimista, não apenas não existiria o lucro necessário para pagar pelas taxas, mas o transporte do dinheiro para o banco de Bamako também era um problema. As estradas próximas à vila podem ser perigosas devido a contrabandistas da Guiné e rebeldes da Costa do Marfim.


Como projectado, o telecentro não pôde pagar pelos seus serviços foi suspenso, desta forma foram suspensos também os pagamentos recebidos pelos clientes. Antes que o projecto fosse capaz de encontrar soluções para estes problemas, o próprio custo do VSAT já havia começado a levar o telecentro ao débito. Depois de vários meses, devido a problemas técnicos assim como às preocupações levantadas pela análise, o equipamento VSAT de banda C foi substituído por outro mais barato de banda Ku, que ainda atendia às necessidades da rede. Este sistema custava apenas 450 euros e, uma vez desconsiderada a amortização e margem de segurança, poderia ser pago pela rede. Infelizmente, devido a falhas de pagamento, a rede não pode pagar pela ligação VSAT após o período inicial de subsídio.

Conclusões

A construção de uma rede wireless é relativamente fácil, mas torná-la operacional é mais uma questão de negócios do que técnica. Um modelo de pagamento que considere o reinvestimento e riscos é uma necessidade, caso contrário a rede irá falhar. Neste caso, o modelo de pagamento não era apropriado, já que não estava em conformidade com os ciclos fiscais dos clientes e nem com suas expectativas sociais. Uma análise de riscos apropriada teria concluído que 700 euros de receita mensal deixaria uma margem muito estreita entre a receita e a despesa, incapaz de compensar problemas não previstos. Alta procura e necessidades educacionais limitaram a expansão da rede. Após aprendizagem, a rede funcionou por oito meses sem nenhum problema técnico significativo. Então, uma falha de energia causada por um raio destruiu a maioria do equipamento na estação, incluindo o access point e o VSAT. Na ocasião, a fórmula já apontava que a solução implementada não era a apropriada.

Ofertas comerciais no Leste da África

Esta sessão descreve a implantação de soluções wireless comerciais na Tanzânia e no Quénia que garantem 99,5% de disponibilidade no acesso à internet e conectividade de dados em países em desenvolvimento. Em contraste com projectos destinados ao acesso ubíquo, focou-se a oferta de serviços a organizações, tipicamente aquelas com necessidades críticas de comunicação internacional.

Tanzânia

Em 1995, com Bill Sangiwa, fundou-se o CyberTwiga, um dos primeiros fornecedores de acesso à internet em África. Serviços comerciais, limitados ao tráfego de email em um link SITA de 9,6 kbps (custando mais de 4000 euros ao mês!) começaram em meados de 1996. Frustrado com a má qualidade dos serviços de telefonia pública e incentivado pelo sucesso na implantação de uma rede multiponto com três nós pela Autoridade dos Portos da Tanzânia, negociamos com uma empresa de telefonia celular para a colocação de uma estação base PMP (ponto-a-multiponto) na sua torre central. Com a ligação de algumas corporações a esta LAN wireless proprietária de 2,4 GHz no final de 1998, nós validamos o mercado e nossa capacidade técnica para o fornecimento de serviços wireless. Como os competidores anarquicamente implantaram redes de 2,4 GHz, dois factos apareceram; um mercado para serviços wireless já existia, mas um aumento do ruído de RF nas redes de 2,4 GHz iria diminuir a qualidade da rede. Nossa incorporação à empresa de telefonia móvel, em meados do ano 2000, incluía planos para uma rede nacional sem fio, construída com o uso da infra-estrutura existente para celulares (torres e linhas de transmissão) e alocação de espectro RF proprietário.


Como a arquitectura já existia (torres de celulares, linhas de transmissão, etc) o projecto da rede de dados e sua implantação ocorreram de forma rápida e directa. A cidade de Dar es Salaam é bastante plana e como o parceiro de telefonia celular operava uma rede analógica, as torres eram muito altas. Uma empresa irmã no Reino Unido, Tele2, tinha começado suas operações com equipamentos Breezecom (agora Alvarion) na frequência de 3,8/3,9 GHz, assim, seguimos o mesmo caminho. No final de 2000, estableceu-se a cobertura em várias cidades utilizando circuitos E1 fraccionados para o link principal (backbone) da rede. Em muitos casos, o tamanho pequeno das cidades ligadas justificou o uso de uma simples estação base omnidirecional PMP. Apenas na capital comercial, Dar es Salaam, foi que instalamos estações base de três sectores. Os limites de largura de banda foram configurados directamente nos rádios clientes, aos quais normalmente configuramos um endereço IP público e único. Os routers em cada estação-base enviavam o tráfego aos endereços IP estáticos nas localidades clientes e evitavam que o tráfego broadcast inundasse a rede.


As pressões do mercado mantiveram os preços baixos, em cerca de 100 euros ao mês para 64 kbps, mas naquele tempo (meados do ano 2000) os fornecedores de acesso podiam funcionar com rádios de contenção muito impressionantes e lucrativos. Aplicações famintas por rede, como as de partilha de arquivos peer-to-peer, voz e ERPs simplesmente não existiam no Leste de África. Com o alto custo das redes internacionais de telefonia, as empresas rapidamente mudaram o tráfego via fax para email, mesmo que a compra de seus equipamentos wireless custassem entre 2 e 3 mil euros. Capacidades técnicas foram desenvolvidas internamente, fazendo com que a equipe recebesse formação internacional em matérias como snmp e UNIX. Além de melhorar o conjunto de habilidades da empresa, estas oportunidades de formação contribuíram para a lealdade da equipa. Tínhamos que competir com empresas de mineração de ouro, as Nações Unidas e outras agências internacionais por um limitado mercado de mão-de-obra em TI.


Para garantir a qualidade nas instalações clientes, um profissional de instalação local de rádio e telecomunicações altamente qualificado foi contratado, com o acompanhamento detalhado do processo em cartões de trabalho. Temperaturas altas, uma forte luz solar equatorial, chuvas fortes e tempestades eléctricas estavam entre os insultos naturais aos quais os componentes externos eram submetidos. A integridade do cabeamento RF era vital. A maioria dos clientes não possuía uma equipa competente de TI, obrigando nossos empregados à tarefa de configurar muitas espécies de hardware e topologias de rede. Obstáculos legais e de infra-estrutura impediam nossas operações com frequência. O operador de celular controlava rigidamente as suas torres de forma que, na eventualidade de um problema técnico numa estação base, horas ou dias poderiam se passar antes que o acesso à torre fosse concedido. Mesmo com geradores reservas e no-breaks em cada localidade, a energia eléctrica sempre foi um problema. Para o operador de celular, o fornecimento principal de energia eléctrica nas estações-base não era tão crítico, já que os assinantes simplesmente associavam-se a uma outra estação-base, enquanto nossos clientes wireless fixos ficavam offline.


No lado legal, o problema maior aconteceu quando a autoridade de telecomunicações decidiu que nossa operação era a responsável por interferências nas operações de satélite em banda C em todo o país, ordenando que desligássemos a nossa rede. Mesmo mostrando evidências definitivas de que a culpa não era nossa, a agência reguladora conduziu um bloqueio, com grande publicidade, do nosso equipamento. Obviamente, a interferência persistiu e mais tarde foi determinado que ela vinha de um radar russo envolvido no acompanhamento de actividades espaciais. Nós negociamos silenciosamente com a agência reguladora e, ao final, fomos recompensados com duas faixas de 42 MHz no espectro proprietário das bandas de 3,4/3,5 GHz. Os clientes foram migrados durante o período de pouco mais de um mês para que as estações bases fossem reconfiguradas e novos equipamentos fossem instalados nos clientes. Por fim, a rede cresceu para cerca de 100 nós fornecendo boa (mesmo que não óptima) conectividade para sete cidades em mais de 3000 quilómetros de linhas de transmissão. Apenas a união com o operador de celular tornou esta rede possível a escala de negócios de internet e dados, unicamente, não teria justificado a construção de uma rede de dados destas dimensões e o investimento necessário para as frequências proprietárias. Infelizmente, o operador de celular decidiu encerrar seu negócio de internet em meados de 2002.

Nairóbi

No início de 2003 uma empresa do Quénia, AccessKenya, com fortes negócios com o Reino Unido e retaguarda técnica para projectar quis instalar uma rede wireless em Nairóbi e redondezas. Beneficiados com profissionais soberbos nas áreas de negócios e redes, hardware wireless de qualidade, progressos em redes internet e um mercado maior, foi projectado uma rede de alta disponibilidade, alinhada com as imposições legais. Duas questões de legislação direccionaram o projecto de rede. Naquela época, no Quénia, a licença para os serviços de internet era separada daquela dos operadores públicos de dados e uma única empresa não poderia ter ambas as licenças. Para carregar o tráfego de provedores múltiplos ou utilizadores corporativos, a rede deveria ter total neutralidade. As frequências proprietárias de 3,4/3,5 GHz não eram licenciadas para um fornecedor único e estávamos preocupados com interferências e a vontade técnica e política da agência reguladora. Além disso, o espectro na frequência de 3,4/3,5 GHz era caro, custando cerca de mil euros ao ano por estação-base. Dito de outra forma, uma estação-base utilizando 2 x 12 MHz implicava em taxas de licenças acima de 10 mil euros ao ano. Como Nairóbi é uma cidade de colinas, com muitas árvores e vales, as redes wireless de banda larga requeriam muitas estações base. A sobrecarga de licenças não era negligenciável. Por outro lado, as frequências de 5,7/5,8 GHz eram sujeitas apenas a uma licença anual de cerca de 120 euros por rádio instalado.


Para atender ao primeiro requisito legal, optamos fornecer serviços utilizando túneis VPN ponto-a-ponto e não através da rede ou de rotas estáticas de IP. Um fornecedor atribuiria um endereço IP público no seu centro de operações. A rede faria a conversão do IP público para privado e o tráfego ocorreria na nossa rede no espaço privado de endereços. No lado do cliente, uma conversão de IP privado para público entregaria ao cliente um endereço (ou conjunto de endereços) IP roteável globalmente para a sua rede. A segurança e criptografia contribuíram para a neutralidade, flexibilidade e propriedades únicas de venda para a nossa rede. A largura de banda era limitada no nível do túnel VPN. Com base na experiência operacional de empresa irmã no Reino Unido, VirtualIT, seleccionamos a Netscreen (agora uma subsidiária da Juniper Networks) como o fornecedor da firewall e routers VPN. Nosso critério para os equipamentos wireless de banda larga eliminou canos grandes e equipamentos cheios de funcionalidades, de alta performance. Formatos padrão de confiança e facilidade de instalação e administração eram mais importantes do que velocidade. Todas as ligações internacionais para o Quénia em 2003, e até o momento em que escrevo, são feitas via satélite. Com custos cem vezes superiores à fibra óptica, as ligações via satélite impõem um limite financeiro na quantidade de banda que é adquirida pelos utilizadores finais. Julgou-se que a grande parte da população necessitava de uma capacidade da ordem de 128 a 256 kbps. Seleccionou-se a recém lançada plataforma Canopy da Motorola para nosso modelo de rede e negócios.


A empresa Broadband Access, Ltd, estreou em Julho de 2003, lançando a rede "Blue". Começou-se em pequeno, com uma única estação-base. Queríamos que a procura direccionasse o crescimento de nossa rede, ao invés de confiar na estratégia da construção de grandes canos e a esperança de que eles seriam preenchidos. Os equipamentos Canopy e melhorias de terceiros, como estações-base omnidirecionais, a rede cresceu de acordo com o crescimento do tráfego, aliviando despesas capitais iniciais. Sabíamos que o preço disto era o de, com a expansão da rede, termos que sectorizar o tráfego e realinhar rádios de clientes. A curva suave de aprendizagem em uma rede pequena trouxe dividendos posteriores. A equipa técnica adquiriu conforto com o suporte aos problemas dos clientes num ambiente de rede simples, ao invés de ter que lidar com eles na complexidade de um ambiente lógico e de RF. A equipe técnica participou de dois dias de sessões de formação fornecidos pela Motorola. Foi um projecto PMP típico, com estações-base ligaddas a um ponto central através de um backbone de micro-ondas de alta velocidade Canopy. A rede foi instalada em telhados de prédios e não em torres de antenas. Todas as localidades contratadas asseguravam um acesso 24x7 para a equipa, energia eléctrica e, criticamente, protegiam a exclusividade das nossas frequências de rádio. Não queríamos restringir os senhorios na oferta de espaço no telhado para a concorrência, mas apenas a garantia de que nossos próprios serviços não seriam interrompidos.


A instalação em telhados fornece muitas vantagens. O acesso físico ilimitado, mesmo durante a noite ou com chuva ajudou-nos a atingir nosso objectivo de 99,5% de disponibilidade da rede. Grandes prédios também alojam muitos clientes grandes, sendo possível liga-los directamente na rede principal de micro-ondas. A instalação em telhados tem o contraponto de um tráfego maior de pessoas; trabalhadores fazendo a manutenção de equipamentos, consertando vazamentos e, ocasionalmente, danificando cabos. Como resultado disto, todas as estações-base eram montadas com dois conjuntos de cabos para todos os elementos de rede, um primário e um reserva. Pesquisas locais confirmaram a disponibilidade do link de rádio e os requerimentos dos clientes. A equipe de pesquisa registou a posição gps para cada cliente e levava um detector de altura a laser para registar também a altura dos obstáculos. Assim que receberam o pagamento pelo hardware, os contratados, sob a supervisão de uma pessoa da equipe técnica, realizaram a instalação dos equipamentos. O Canopy tem a vantagem de que tanto os equipamentos para a instalação nos clientes como os elementos da estação base são leves, de forma que a maioria das instalações não necessitou de trabalho extenso de construção. O cabeamento do Canopy também é simples, com uma ligação externa UTP ligando os rádios directamente às redes dos clientes. Com o planeamento apropriado, a maioria das instalações foi completada em menos de uma hora, sem a necessidade de formação avançado dos contratados ou ferramentas especiais.


Conforme compilávamos centenas de posições gps dos clientes, começamos a nos aproximar de uma empresa de pesquisas local, para colocar estas localidades em mapas topográficos. Isto tornou-se uma ferramenta chave para o planeamento de instalação de estações-base. Observe que a arquitectura ponto-a-ponto com túnel VPN, com as suas camadas física e lógica separadas, necessitava que os clientes adquirissem tanto os equipamentos wireless para banda larga como a VPN. A fim de controlar fortemente a qualidade, nós nos recusamos categoricamente a aceitar que os clientes fornecessem seu próprio hardware eles tinham que o adquirir de nós a fim de ter garantias de serviço e do hardware. Cada cliente tinha o mesmo pacote de hardware. Instalações típicas custavam cerca de 2500 euros, em comparação com os custos mensais de 500 a 600 euros para 64 a 128 kbps de largura de banda. O benefício do túnel VPN é que nós podíamos impedir que o tráfego do cliente passasse pela rede lógica (no caso da sua rede estar infectada por um worm, ou se eles não pagassem a conta) enquanto a camada de rádio permanecia intacta e administrável. Como isto cresceu de uma estação-base para dez, e os serviços foram expandidos para Mombasa, o projecto da rede RF evoluiu e, sempre que possível, os elementos de rede (routers) foram configurados com tolerância a falhas (failover) ou redundância (hot swap). Grandes investimentos tiveram que ser feitos em inversores e no-breaks em cada estação-base para garantir a estabilidade face à errática rede eléctrica.


Depois que um certo número de problemas em clientes (queda de ligações VPN) foi causado por quedas de energia, passamos a incluir um pequeno no-break como parte integral do pacote de equipamentos. A adição de um analisador portátil de espectro ao nosso capital inicial de investimento foi custosa, mas altamente justificada na operação de nossa rede. A detecção de routers desonestos, a confirmação de características operacionais do equipamento e a verificação da cobertura de RF melhoraram o desempenho. A atenção fanática à monitorização permitiu melhorar o desempenho da rede e recolher dados históricos valiosos. Registramos em gráficos feitos com o MRTG ou Cacti parâmetros como variação (jitter), RSSI e tráfego oriundo de routers desonestos, deterioração de cabos ou fichas e presença de worms em redes de clientes. Não era invulgar que clientes reclamassem que o serviço em sua localidade havia sido interrompido por horas ou dias, exigindo crédito para cobrir isto. A monitorização histórica verificou ou invalidou estas reclamações. A rede Blue combinou várias lições da Tanzânia com uma melhor tecnologia de rede e RF.

Lições aprendidas

Durante alguns anos os circuitos de satélite ainda irão prover toda as ligações internet internacionais no Leste da África. Muitos grupos têm oferecido propostas para a ligação submarina com fibras ópticas, o que irá melhorar as telecomunicações quando acontecer. Comparado a regiões com ligação com fibra, o custo da banda no Leste da África permanecerá muito alto. Redes wireless de banda larga para a entrega de serviços internet, portanto, não devem focar-se na velocidade. Ao invés disto, o ênfase deve ser colocado na estabilidade, confiança, redundância e flexibilidade. A confiança na estabilidade das nossas redes sem fio era o ponto chave para a venda. No lado da rede, isto traduziu-se em investimentos consideráveis em substituição de infra-estrutura, como torres reserva, e atenção a detalhes como a montagem de ligações e cabeamento. A causa mais comum para que um cliente deixasse de ter conectividade eram cabos ou fichas. Não se ouvia falar, essencialmente, de falhas de rádios. Uma vantagem competitiva importante em nosso processo de instalação em clientes é que as equipes contratadas eram forçadas a aderir a especificações rigorosas. Era comum em sites bem administrados de clientes que a ligação ficasse activa por centenas de dias, sem nenhuma parada que não fosse programada. Nós controlávamos o máximo possível de toda a infra-estrutura (por exemplo, os telhados dos prédios).


Mesmo sendo atractiva uma potencial aliança com operadores de telemóveis, a experiência mostrou que eles trazem mais problemas do que podem resolver. No Leste da África os negócios com internet representam uma fracção dos lucros de telefonia móvel, um lucro marginal para operadoras de celulares. A manutenção da rede de uma estrutura que não lhe pertence é, do ponto de vista da operadora de celular, um gesto de boa vontade, o que torna impossível atender aos compromissos da oferta do serviço. A implantação de redes completamente redundantes, com tolerância a falhas e capacidade de hot swap é uma proposta cara em África. Apesar disto, os routers e o hardware VPN no nosso ponto central de presença são completamente redundantes, configurados para a tolerância transparente a falhas e testados rotineiramente. Para as estações-base decidimos não instalar routers duplos, mas manter routers reserva em stock. Julgamos que 2 a 3 horas de indisponibilidade no pior caso (uma falha a 1h da manhã de um domingo com chuva) seria aceitável pelos clientes. Nos finais de semana, os membros da equipa têm acesso a um stock de emergência que contém reservas para os equipamentos dos clientes, como rádios e fontes de alimentação.


A flexibilidade foi incluída no protejo lógico e de RF da rede. A arquitectura de túnel VPN ponto-a-ponto instalada em Nairóbi era extremamente flexível ao atender as necessidades de rede dos clientes. As ligações aos clientes poderiam ser aceleradas (modo burst, ou rajada) durante as horas de pico para permitir cópias de backup para locais remotos, por exemplo. Nós também podíamos vender múltiplos links para destinos diferentes, aumentando o retorno de investimentos de rede, enquanto lançávamos novos serviços (como a monitorização remota de câmaras de vigilância) a nossos clientes. No lado de RF tínhamos espectro suficiente para planear expansões, assim como implementar um projecto alternativo de rede via rádio no caso de interferências. Com o crescente número de estações-base, provavelmente 80% de nossos clientes tinham duas estações ao alcance visual. Assim, se uma torre fosse destruída, poderíamos restaurar rapidamente o serviço. A separação das camadas lógica e de RF da rede Blue introduziu um nível adicional de complexidade e custo. Levando em conta que, no longo prazo, as tecnologias de rádio irão avançar mais rapidamente que as tecnologias de rede, esta separação nos dá, em teoria, a flexibilidade para a substituição da rede RF sem atrapalhar a rede lógica. Ou podemos instalar uma rede diferente de rádio, alinhada com a evolução tecnológica (WiMax) ou a necessidade dos clientes, enquanto mantemos a rede lógica. Finalmente, devemos nos render ao óbvio ponto que a exótica rede que instalamos seria completamente inútil se não tivéssemos um compromisso incansável com a qualidade de serviços aos nossos clientes. Era para isto, afinal, que éramos pagos.

Mais informações

Broadband Access, Ltd

AccessKenya, Ltd

VirtualIT

Adam Messer, Ph.D

Rede Mesh sem fio na Comunidade Dharamsala

A rede Mesh sem fio na comunidade Dharamsala foi inaugurada em Fevereiro de 2005, logo após a desregulamentação do WiFi para o uso externo na Índia. No final do mesmo mês, a rede mesh já havia interligado oito campus. Testes extensivos durante Fevereiro de 2005 mostraram que o difícil terreno montanhoso é mais apropriado para redes mesh, já que as redes ponto-a-multiponto não conseguiam ultrapassar as limitações de linha de visão apresentadas pelas montanhas. A topologia mesh também ofereceu uma área de cobertura muito maior, já que a natureza de "auto cura" do roteamento mesh provou ser essencial em lugares onde o fornecimento de energia eléctrica era, na melhor das hipóteses, errático. A rede mesh inclui mais de 30 nós, todos partilhando um único canal de rádio. Serviços de internet de banda larga são fornecidos a todos os membros da rede mesh. O número total de largura de banda disponível é de 6 Mbps.


Há mais de 2.000 computadores ligados, colocando uma grande carga sobre a rede. No momento, o sistema parece lidar com esta carga sem aumento de latência ou perda de pacotes, mas está claro que a escalabilidade se tornará um problema se continuarmos a usar um único canal de rádio. Para resolver este problema, novos routers mesh com o suporte a múltiplos canais de rádio estão a ser desenvolvidos e testados em [Dharamsala], com ênfase em produtos que atendam nossos requisitos técnicos e nossa viabilidade económica. Os resultados iniciais são bastante promissores. A rede mesh está baseada na implantação recorrente de um dispositivo de hardware projectado e construído localmente conhecido como o Himalayan Mesh-Router. Os mesmos routers mesh são instalados em todas as localidades, apenas com antenas diferentes, dependendo da localização geográfica e outras necessidades. Foi usada uma grande variedade de antenas, omnidirecionais de 8 a 11 dBi e direccionais de 12 a 24 dBi e, ocasionalmente, algumas antenas sectoriais de alto ganho (e alto custo).

A rede mesh é usada primariamente para:


  • Acesso à Internet
  • Aplicações de partilha de arquivos
  • Backups remotos
  • Reprodução de vídeo de alta qualidade a partir de arquivos remotos


Uma central de VoIP, baseada em um PBX por software (Asterisk) fornece serviços avançados de telefonia para os membros. O PBX Asterisk também possui interface com a rede de telefonia pública. Entretanto, por questões legais, o PBX é utilizado apenas para chamadas internas dentro da rede mesh. Os assinantes usam uma ampla variedade de telefones por software, assim como vários ATAs (Adaptadores para Telefones Analógicos) e telefones IPs com funcionalidades completas.

A rede mesh com criptografia não permite o acesso a dispositivos móveis (como notebooks e PDAs). Assim, colocamos vários ponto de acesso wireless 802.11b em várias das mesmas localizações onde os routers mesh estão instalados. A rede mesh fornece a infra-estrutura, enquanto estes APs fornecem o acesso a dispositivos móveis, quando necessário. O acesso à rede mesh só é possível através de routers mesh. Clientes wireless simples não têm a inteligência necessária para "falar" o protocolo de roteamento da rede mesh e suas políticas estritas de acesso. O canal mesh é usa criptografia (wpa) e também "escondido" para prevenir que os dispositivos móveis o encontrem e tentem aceder. A permissão do acesso à rede mesh apenas para os routers mesh permite um controle estrito de políticas de acesso e limitações aos dispositivos instalados nos clientes (CPE - Client Premises Equipment). Este controle é um elemento crucial para que se consiga a segurança fim-a-fim, limitação de tráfego e qualidade de serviço. O consumo de um router mesh é menor que 4 Watts. Isto os torna ideais para o uso com painéis solares. Muitos dos routers mesh de Dharamsala são alimentados unicamente por pequenos painéis solares. O uso de energia solar, combinado com antenas pequenas e routers de baixa potência é ideal para áreas sujeitas a desastres, já que eles provavelmente irão sobreviver quando outras infra-estruturas de comunicação sofrerem danos.

Rede no estado de Mérida

A cidade de Mérida está localizada ao pé da mais alta montanha da Venezuela, a uma altura de cerca de 1.600 metros. É a capital do estado de Mérida e o lar de duas universidades centenárias, com cerca de 35.000 estudantes. A Universidade de Los Andes (ULA) instalou a primeira rede académica de computadores em 1989. Esta rede, apesar das limitações económicas, cresceu de forma a incorporar um link de 26 km de fibra óptica, através do qual circula o tráfego de redes TDM e ATM (asynchronous transfer mode - modo de transferência assíncrono). Em 2006, sobre o mesmo cabo de fibra óptica, uma rede de 50 km de Gigabit Ethernet foi instalada.

Ainda assim, muitas áreas da cidade e das vilas vizinhas estão fora do alcance do anel de fibra óptica. A universidade funciona com um servidor de comunicação com linhas telefónicas para fornecer o acesso remoto a sua rede, mas ligações locais são tarifadas por minuto e muitas vilas nem sequer possuem telefone. Por estas razões, esforços para o desenvolvimento de acesso wireless à rede da universidade, chamada de RedULA, foram realizados desde o princípio. As primeiras tentativas aproveitaram-se de uma rede existente de pacotes, administrada por rádio-amadores. Logo no início de 1987, eles tinham um gateway com uma estação de HF (High Frequency - Alta Frequência) trabalhando a 300 bps para contactos além-mar, assim como várias estações VHF (Very High Frequency - Frequência Muito Alta) ligadas a 1200 bps que cruzavam o país. Enquanto as montanhas acidentadas da região são um grande obstáculo para a passagem de cabos e construção de estradas, elas podem ser muito úteis na implantação de uma rede de rádio. Esta tarefa ainda teve a ajuda de um sistema de ligações a cabo, reconhecidamente o maior do mundo, que liga a cidade a um pico de 4.765 metros.

Pacotes por rádio

Rádio-amadores locais funcionam numa rede de pacotes por rádio. Inicialmente ela funcionava a 1200 bps, usando rádios amadores de FM em VHF ligados a um computador pessoal através de um TNC (terminal node controller). O TNC é o interface entre o rádio analógico e os sinais digitais tratados pelo PC. O TNC é responsável por assumir os circuitos Push To Talk (aperte para falar) mudando-o entre os modos de transmissão e recepção, realizar a modulação/demodulação e a montagem/desmontagem de pacotes usando uma variante do protocolo X.25 chamada de AX.25. Gateways entre os rádios VHF e HF foram construídos com a ligação de dois modems entre o mesmo TNC e computador. Normalmente, um gateway ligaria a estação de pacotes VHF local a outras estações do outro lado do oceano com o uso de estações de HF que poderiam atingir milhares de quilómetros, mas a uma velocidade de apenas 300 bps. Uma rede nacional de pacotes por rádio também foi construída, utilizando apenas dois digipeaters (digital repeatersrepetidores digitais), essencialmente um TNC ligado a dois rádios com antenas apontando para direccções diferentes. Para estender a rede de Mérida a Caracas. Os digipeaters funcionavam a 1200 bps e permitiam a partilha de programas e alguns arquivos de texto entre os rádio-amadores.


Phil Karn, um rádio-amador com um bom conhecimento de redes de computadores, escreveu o programa KA9Q, que implementa TCP/IP sobre AX.25. Usando este programa, cujo nome é o sinal de chamada de seu programador, os rádio-amadores de todo o mundo logo foram capazes de se ligar à internet usando vários tipos de rádios. O KA9Q mantém as funções do TNC em um nível mínimo, utilizando a capacidade dos PCs ligados a ele para a maior parte de suas funções de processamento. Isto permite uma maior flexibilidade e facilidade de actualizações. Em Mérida, conseguia-se actualizar a rede para 9600 bps com o uso de modems mais avançados e muitos rádio-amadores agora podiam aceder à internet através da rede cabeada RedULA. O limite da largura de banda de rádio disponível em VHF impõe um máximo na velocidade que pode ser atingida. Para aumentar a velocidade, é necessário aumentar a frequência da portadora. Rádio-amadores têm a permissão para usar canais com largura de 100 kHz utilizando sinais UHF (Ultra High Frequency - Frequência Ultra Alta). Rádios digitais ligados com modems de 19,2 kbps dobraram a capacidade de transmissão. Um projecto com o uso desta tecnologia foi desenvolvido para ligar a "Casa de Ciência" na cidade de El Vigia até Mérida e à internet. Antenas UHF foram construídas no LabCom, o laboratório de comunicações da ULA.

Mesmo que El Vigia esteja situada a apenas 100 km de Mérida através da estrada, o terreno montanhoso exigiu o uso de dois repetidores. Um está localizado em La Aguada, a 3.600 m de altitude, e outro em Tusta, a 2.000 m. O projecto foi financiado pela FUNDACITE MERIDA, uma instituição governamental que promove a ciência e tecnologia no estado. A FUNDACITE também opera um conjunto de modems telefónicos de 56 kbps para fornecer acesso à internet para instituições e indivíduos. A necessidade de duas estações repetidoras enfatiza as limitações impostas pelo uso de portadoras de alta frequência, que requerem uma linha de visão para o estabelecimento de uma transmissão confiável. Na banda mais baixa, VHF, os sinais são facilmente reflectidos e podem atingir além das colinas. Algumas vezes é possível a utilização de um repetidor passivo para reflectir sinais, o que é feito com a ligação de duas antenas direccionais ligadas nas suas costas com um cabo coaxial, sem o uso de rádio.


Mesmo que isto seja bastante atraente e certamente muito mais barato que o acesso através de modems para linhas telefónicas, um meio mais rápido obviamente seria necessário para uma rede wireless interligando vilas remotas. Nós ainda exploramos o uso de modems de 56 kbps desenvolvidos por Dale Heatherington. Estes modems são montados numa placa PI2 construído por rádio-amadores de Ottawa e ligados directamente a um PC usando linux como sistema operacional de rede. Mesmo que estes sistemas funcionem muito bem, o surgimento da web e seu grande conjunto de imagens e outros tipos de arquivos que consomem banda deixou claro que, se quiséssemos satisfazer as necessidades de escolas e hospitais, nós deveríamos implantar uma solução de maior largura de banda, ao menos na infra-estrutura central da rede. Isto implicava no uso de frequências portadoras ainda maiores no espectro de micro-ondas, o que aumentaria os custos. Felizmente, uma tecnologia alternativa largamente utilizada em aplicações militares estava tornando-se disponível para o uso civil a preços acessíveis. Chamada de spread spectrum (espectro espalhado), seu primeiro uso em aplicações civis foi em redes locais de pequeno alcance, mas logo provou-se também muito útil em lugares onde o espectro electromagnético não está congestionado, permitindo cobrir distâncias de vários quilómetros.

Spread spectrum

O spread spectrum usa sinais de baixa potência com seu espectro expandido, com o propósito de ocupar toda a largura de banda alocada ao mesmo tempo em que permite que outros utilizadores partilharem o meio, usando códigos diferentes para cada assinante. Há duas formas de se conseguir isto, Direct Sequence Spread Spectrum (DSSS - Sequência directa de espalhamento do espectro) e Frequency Hoping Spread Spectrum (FHSS - Espalhamento de espectro em intervalo de frequência).

No DSSS a informação a ser transmitida é multiplicada digitalmente por uma sequência de frequência mais alta aumentando, desta forma, a largura de banda da transmissão. Mesmo que isto pareça ser um desperdício de largura de banda, o sistema de recuperação é tão eficiente que pode descodificar sinais muito fracos, permitindo o uso simultâneo do mesmo espectro por várias estações.

Em FHSS, o transmissor constantemente muda a frequência portadora dentro da banda alocada, de acordo com um código especificado. O receptor deve conhecer este código a fim de acompanhar a frequência portadora. Ambas as técnicas trocam potência de transmissão por largura de banda, permitindo que muitas estações partilhem uma determinada porção do espectro. Durante a Primeira Escola Latino Americana de Redes (EsLaRed '92) que ocorreu em Mérida, em 1992, nós conseguimos demonstrar esta técnica. Estabelecemos vários testes utilizando antenas externas construídas no LabCom, conseguindo transmissões em muitos quilómetros. Em 1993, o Ministério de Comunicações da Venezuela permitiu o uso de quatro bandas para o uso com DSSS:


  • 400 - 512 MHz
  • 806 - 960 MHz
  • 2,4 - 2,4835 GHz
  • 5,725 - 5,850 GHz


Em qualquer das bandas acima, a máxima potência de transmissão foi restrita a 1 Watt e o máximo ganho de antena a 6 dBi, para uma EIRP (effective isotropic radiated power—potência de radiação isotrópica efetiva) de 36 dBm. Esta normalização pavimentou o caminho para o desenvolvimento de uma rede DSSS com uma largura de banda nominal de 2 Mbps na frequência de 900 MHz. Esta tecnologia satisfez a necessidade criada pela falha de actividade na web. A rede começou no LabCom, onde tinha à disponibilidade de uma ligação com a RedULA. O LabCom instalou uma antena Yagi construída localmente, apontando a um reflector em Aguada. Isto forneceu um feixe com a largura de 90 graus, cobrindo a maior parte da cidade de Mérida. Muitas localidades assinantes, todas partilhando a largura de banda nominal de 2 Mbps, estavam logo a trocar arquivos, incluindo imagens e clips de vídeo. Alguns assinantes que necessitavam de cabos longos entre a antena e o rádio de espectro espalhado foram atendidos com o uso de amplificadores bidireccionais.


Estes resultados encorajadores foram passados a um grupo estabelecido no Centro Internacional de Física Teórica (International Centre for Theoretical Physics - ICTP ) em Trieste, na Itália, em 1995. Este grupo tinha o objectivo de fornecer uma ligação entre o Centro de Informática, o Instituto de Ciências Físicas e o Instituto de Tecnologia na Universidade de Ile-Ife, na Nigéria. Mais tarde, no mesmo ano, a rede foi construída pela equipe do ICTP, com recursos da Universidade das Nações Unidas e está em funcionamento até hoje, provando ser uma solução muito mais efectiva em termos de custos do que a solução em fibra óptica planeada originalmente poderia ter sido.De volta à Mérida, com o aumento do número de locais ligados, a velocidade de acesso por utilizador caiu. Começou-se a averiguar a banda de 2,4 GHz para fornecer capacidade adicional. Esta banda pode suportar, simultaneamente, três fluxos independentes de 2 Mbps cada, mas o alcance efectivar é menor do que o possível com a banda de 900 MHz. Estávamos muito ocupados no planeamento da extensão da rede usando 2,4 GHz quando soubemos de uma nova empresa que oferecia uma solução que prometia a cobertura de maiores distâncias, velocidade dramaticamente mais alta e a possibilidade de reutilização de frequências com micro-ondas de banda estreita.

Sistema de entrega de banda larga

Após uma visita às instalações da Spike Technologies, em Nashua, New Hampshire, nos estados unidos, estávamos convencidos de que os seus sistemas proprietários de rádio e antena eram a melhor solução para os requisitos de nossa rede estadual pelas seguintes razões: Seu sistema de entrega de banda larga emprega uma antena sectorial especial (Figura 11.9) com ganho de 20 dBi em cada um dos 22 sectores independentes. Cada sector transmite e recebe em um canal independente a 10 Mbps, full duplex, em um agregado de 440 Mbps. A reutilização da frequência em sectores intercalados faz com que o sistema utilize o espectro de forma eficiente.

Os rádios digitais de banda estreita podem funcionar em qualquer frequência entre 1 e 10 GHz, com uma cobertura de até 50 km. Os rádios trabalham com uma variedade de modems de TV a cabo, fornecendo uma ligação 10Base-T padrão para o assinante. Na estação-base, os sectores são ligados com um switch de alta velocidade e baixíssima latência (veja a Figura 11.10), permitindo aplicações como streaming de vídeo de até 30 quadros por segundo. Cada sector funciona como uma Ethernet LAN independente.

No lado do assinante, um rádio semelhante e um modem fornecem uma ligação 10BaseT para a Ethernet local.

Com o financiamento da Fundacite, um sistema de teste logo foi instalado em Mérida, com a estação-base localizada logo acima da estação de ligação em La Aguada, a uma altura de 3.600 metros. Inicialmente, apenas cinco sectores foram instalados, com uma largura de feixe de 16 graus cada. O primeiro assinante estava nas instalações da Fundacite, onde um sistema de satélite fornece o acesso à internet. O segundo sector atendeu ao Palácio do Governador. O terceiro serviu à FUNDEM, uma fundação de apoio a vítimas de desastres mantida pelo governo local. O sector quatro foi usado na ligação de uma prisão próxima à cidade de Lagunillas, cerca de 35 km distante de Mérida. O quinto sector transmitia a um repetidor no topo de uma montanha próxima à vila de La Trampa, a 40 km de La Aguada. De La Trampa, um outro link de 41 km estendeu a rede para a Casa da Ciência na cidade de Tovar. Em 31 de janeiro de 1998, uma vídeo conferência entre a prisão e o Palácio da Justiça de Mérida provou que, além de fornecer acesso à internet, o sistema também permitia a transmissão de vídeo. Neste caso, ele foi usado para julgamento de prisioneiros, evitando a inconveniência e os riscos de seu transporte.


O sucesso deste teste fez com que o governo alocasse fundos para sua implementação completa, dando acesso de alta velocidade à internet para o sistema de saúde do estado, o sistema educacional, bibliotecas, centros comunitários e várias agências de governo. Em Janeiro de 1999, existiam três hospitais, seis instituições educacionais, quatro instituições de pesquisa, dois jornais, uma estação de TV, uma biblioteca pública e 20 organizações sociais e governamentais compartilhando informações e acedendo à internet. Os planos incluíam a ligação de 400 localidades dentro deste ano, com velocidade de 10 Mbps full duplex, com recursos já alocados para este propósito. A Figura 11.13 mostra um mapa do estado de Mérida. As linhas escuras mostram o backbone inicial, enquanto as linhas claras mostram a sua extensão.

Dentre as muitas actividades suportadas pela rede, é importante mencionar as seguintes:


  • Educacional: As escolas encontraram uma fonte infindável de material de alta qualidade para seus alunos e professores, especialmente nas áreas de geografia, idiomas e ciências, assim como uma ferramenta para a comunicação com outros grupos que compartilham interesses comuns. As bibliotecas têm salas com computadores com capacidade plena de acesso à internet que podem ser acedidas pelo público em geral. Os jornais e estações de TV têm uma fantástica fonte de informações que podem disponibilizar para suas audiências.
  • Pesquisa: O observatório de astronomia de Llano del Hato, localizado em uma montanha de 3.600 m e a 8 graus do equador será ligado, permitindo aos astrónomos de todo o mundo o acesso às imagens ali recolhidas.

Pesquisadores de campo, em muitas vilas, poderão contar com o acesso à internet.

  • Governo: Muitas agências de governo já estão conectadas e começaram a disponibilizar informações online para os cidadãos. Esperamos que isto tenha um profundo impacto na relação entre os cidadãos e o governo. Agências humanitárias e de policiamento fazem grande uso da rede.


  • Entretenimento e Produtividade: Para as pessoas que vivem fora da cidade, as oportunidades oferecidas pela rede tiveram um impacto significativo em sua qualidade de vida. Nós esperamos que isto ajude a reverter a tendência de migração para fora das regiões do interior, aliviando a superpopulação das áreas urbanas. Agricultores têm acesso à informação sobre os preços de mercado de suas colheitas e suprimentos, assim como sobre melhores práticas para a agricultura.


Durante o SUPERCOMM '98, que aconteceu em Junho na cidade de Atlanta, a rede de banda larga de Mérida recebeu o prémio SUPERQuest na categoria 8-Remote Access como o melhor entre os indicados.

Formação

Desde os nossos esforços iniciais para estabelecer uma rede de computadores, notamos que a formação era de importância fundamental para as pessoas envolvidas na construção, gestão e manutenção da rede. Em função de nosso orçamento limitado, tivemos que unir o que tínhamos com os recursos de outras pessoas que também necessitavam de formação. Em 1990, o ICTP organizou a Primeira Escola Internacional em gestão e análise de redes de computadores, da qual participaram os professores Jose Silva e Luiz Nunez da nossa universidade.Na seu regresso a Mérida, propuseram que devíamos de alguma forma replicar esta actividade na universidade. Para isto, tomando vantagem de minhas férias sabáticas, passou-se três meses na Bellcore, em Morristown, Nova Jersey, estados unidos e mais três meses no ICTP, auxiliando na preparação da Escola de Redes em 1992, onde o professor Edmundo Vitale passou fazer parte da equipa.

O resto das férias na SURANET, em College Park, Maryland, foi sob a tutela do Dr. Glenn Ricart, que apresentou-se ao Dr. Saul Hahn da Organização dos Estados Americanos, que ofereceu suporte financeiro para uma actividade de formação na América Latina. Estas experiências permitiram que lançássemos a primeira Escola Latino-Americana de Redes (EsLaRed'92) em Mérida, que contou com 45 participantes de oito países da região, com instrutores da europa, estados unidos e América Latina. Esta formação prática durou três semanas e as tecnologias wireless tiveram ênfase. EsLaRed'95 aconteceu novamente em Mérida, com 110 participantes e 20 instrutores. EsLaRed'97 tinha 120 participantes e foi recomendada pela Internet Society, que também patrocinou o primeiro Workshop em Português e Espanhol para a América Latina e o Caribe, que aconteceu no Rio de Janeiro em 1998, com a EsLaRed sendo responsável pelo conteúdo da formação. Agora, dez anos depois, a EsLaRed continua a expandir seus esforços de formação em toda a América do Sul.

Considerações Finais

A internet tem um impacto ainda mais profundo nos países em desenvolvimento do que em qualquer outro lugar em função dos altos custos de chamadas telefónicas internacionais, fax, revistas e livros. Isto é altamente exacerbado pelo baixo poder de compra da população. Alguns moradores em vilas remotas, que não têm telefones, estão experimentando a transição directa do século 19 ao século 21, graças a redes sem fio. Espera-se que isto contribua para a melhoria de vida nas áreas de saúde, educação, entretenimento e produtividade, assim como crie uma relação mais equilibrada entre os cidadãos e o governo.

Referências

  • Conatel, Comision Nacional de Comunicaciones, Ministerio de Transporte y Comunicaciones, "NORMAS PARA LA OPERACION DE SISTEMAS DE TELECOMUNICACIONES CON TECNOLOGIA DE BANDA ESPARCIDA (SPREAD SPECTRUM)," Caracas, 17 November 1993.

Chilesincables.org

Tecnologias recentes de transmissão sem fio de dados permitiram a criação de redes separadas geograficamente, de alta velocidade, a um custo relativamente baixo. Caso estas redes sejam construídas dentro da ideia de remover restrições no acesso à informação, as chamamos de redes livres. Tais redes podem trazer grandes benefícios a todos os utilizadores, independente de suas condições políticas, sociais ou económicas. Este tipo de rede é uma resposta direita ao modelo comercial normalmente restritivo que está imposto sobre a maioria da sociedade ocidental.


A fim de que redes livres floresçam, tecnologias wireless devem ser adequadas e postas a seu melhor uso possível. Isto é feito por grupos de hackers que fazem a pesquisa, investigação, desenvolvimento e implantação de projectos, permitindo livre acesso ao conhecimento por eles adquirido. A http://Chilesincables.org tem como objectivo a promoção e organização de redes wireless livres no Chile, de forma profissional. Fazemos isto ao fornecer educação sobre os aspectos técnicos e legais de redes sem fio, encorajar a adaptação de novas tecnologias através de pesquisas adequadas e estimular estas tecnologias para que atendam necessidades específicas das comunidades e da sociedade chilena.

Descrição da tecnologia

Empregamos uma grande variedade de tecnologias wireless, incluindo o IEEE 802.11.a/b/g. Também investigamos inovações neste campo, como o WiMAX. Na maioria dos casos, o equipamento foi modificado a fim de aceitar antenas externas construídas localmente e que estejam de acordo com as normas locais de telecomunicações. Mesmo que a maior parte do hardware wireless disponível no mercado atendesse a nossos objectivos, encorajamos a utilização e exploração daqueles poucos fornecedores que permitiam um maior controle e a adaptação às nossas necessidades (sem que isto correspondesse necessariamente a um aumento de custos).


Isto inclui as placas WiFi com arquitectura Atheros, Prism, Orinoco e Ralink, assim como modelos de APs fabricados pela linksys, Netgear e Motorola. A comunidade hacker tem desenvolvido firmware que adiciona novas funcionalidades a estes equipamentos. Para a infra-estrutura da rede utilizamos sistemas operacionais de código aberto, incluindo o GNU/linux, FreeBSD, OpenBSD e Minix. Isto atendeu nossas necessidades nas áreas de roteamento e na implementação de serviços como servidores proxy, web e ftp. Além disto, estes sistemas partilham a filosofia de nosso projecto, que é a de usar tecnologia livre com programas de código aberto.

Usos e aplicações

As redes implementadas disponibilizam, até o momento, as seguintes tarefas:

  • Transferência de dados através de FTP ou servidores web
  • Serviços de VoIP
  • Streaming de áudio e vídeo
  • Mensagens instantâneas
  • Exploração e implementação de novos serviços como LDAP, resolução de nomes, novos métodos de segurança, etc
  • Serviços fornecidos pelos clientes. Os utilizadores são livres para alterar a infra-estrutura da rede a fim de criar seus próprios serviços.

Administração e manutenção

A unidade operacional da rede é o nó. Cada permite ao cliente associar-se à rede e obter serviços básicos. Obrigatoriamente, cada deve estar associado ao menos a outro nó. Isto permite que a rede cresça de forma o tornar mais serviços disponíveis para cada cliente. Um é mantido por um administrador, que é um membro da comunidade comprometido com as seguintes tarefas:


  • Manutenção da taxa adequada de disponibilidade (maior que 90%)
  • Provimento de serviços básicos (normalmente o acesso web)
  • Manutenção dos clientes actualizados sobre os serviços oferecidos pelo (por exemplo, quem pode aceder à rede).Isto é geralmente feito através do portal cativo.
  • A administração geral da rede (especialmente tarefas relacionadas à implantação de novos nós, selecção de localidades, topologia de rede, etc.) é feita pelo comité director da comunidade ou por técnicos formados para este propósito.


Chilesincables.org está actualmente no processo de transformação para uma organização legal, um passo que permitirá a regulamentação de seus processos administrativos internos e a formalização da comunidade como nossa associada.

Formação de capacidades

Chilesincables.org considera de vital importância a formação dos seus membros e clientes pelas seguintes razões:


  • O espectro de rádio deve ser mantido o mais limpo possível, de forma a garantir a qualidade das comunicações wireless. Desta forma, a formaão em técnicas de comunicação de rádio é essencial.
  • O uso de materiais e métodos aprovados pela legislação vigente é requerimento para o desenvolvimento normal das actividades.
  • A fim de atender os padrões da internet, nossos administradores de rede são ensinados em redes TCP/IP.Para garantir a continuidade de nossas operações de rede, o conhecimento desta tecnologia deve ser transferido aos utilizadores.


Para dar suporte a estes princípios, Chilesincables.org é responsável pelas seguintes actividades:


  • Promoção e Divulgação. Os mesmos objectivos são promovidos, mesmo para diferentes comunidades. Isto inclui workshops em faculdades, aulas, reuniões sobre software livre, etc.
  • Actualização de Materiais. Chilesincables.org mantém um bom número de documentos e materiais disponibilizados para pessoas interessadas em actividades específicas.


As fotografias nas páginas seguintes apresentam um breve resumo das atividades em nossa comunidade.

Figura 11.19: Esquema representando o streaming de vídeo da transmissão do Santiago-2006 FLISOL com o uso de software livre. A transmissão wireless conseguida tinha 36 Mbps num 1 km.

Figura 11.20: Nó de Quiani. Este é um dos nós mais altos do mundo. Está localizado a uma altura de 4.000 m, cerca de 2.000 km ao norte da capital do país.

Figura 11.21: Nó na região sul de Santiago, formado por uma torre de 15 m, uma antena Trevos Marshall 16+16 e 30 clientes. Este está ligado a outro no centro da cidade, a mais de 12 km de distância.

Figura 11.23: Nó central de Santiago, ligado ao no sul da cidade. Repare na antena parabólica para esta ligação a antena omnidirecional é encaixada para a ligação com os clientes.

Figura 11.24: Implantação de um em uma caixa de água em Batuco, na região metropolitana, que fornece o link para o telecentro Cabrati.

Figura 11.25: Workshop sobre antenas Yagi, organizado pela nossa comunidade. Os participantes estão a construir suas próprias antenas.

Créditos Chilesincables

Nossa comunidade é formada por um grupo de associados voluntários comprometidos com nosso trabalho, dentre os quais destacamos:

Felipe Cortez (Pulpo), Felipe Benavides (Colcad), Mario Wagenknecht (Kaneda), Daniel Ortiz (Zaterio), Cesar Urquejo (Xeuron), Oscar Vasquez (Machine), Jose San Martin (Packet), Carlos Campano (Campano), Christian Vasquez (Crossfading), Andres Peralta (Cantenario), Ariel Orellana (Ariel), Miguel Bizama (Picunche), Eric Azua (Mr. Floppy), David Paco (Dpaco), Marcelo Jara (Alaska).

Longa Distância com 802.11

Graças a sua topografia favorável, a Venezuela já possui alguns links WLAN de longa distância, como o de 70 km administrado pela Fundacite Mérida entre o Pico Espejo e a cidade de Canagua. Para testar os limites desta tecnologia é necessário encontrar um caminho com uma linha de visão direita com um espaço de ao menos 60% para a primeira zona Fresnel. Enquanto se procurava um terreno na Venezuela, buscando por uma área com duas elevações altas em cada extremidade e um solo baixo entre elas, o foco foi primeiro na região de Guayana. Ainda que uma série de terras altas tenham sido encontradas, particularmente os famosos "tepuys" (mesas altas com paredes íngremes), existiam muitos obstáculos no caminho entre entre elas.


A atenção focou-se para os Andes que, com suas encostas íngremes subindo abruptamente das planícies, provaram-se adequados para a tarefa. O Pico del Águila é um local muito favorável. Tem uma altura de 4.200 m e está cerca de duas horas de viagem da cidade de Mérida. Para a outra ponta, finalmente localizei a cidade de El Baúl, no estado de Cojedes. Usando o software livre Radio Mobile descobriu-se que não havia nenhuma obstrução para a primeira zona Fresnel (numa distância de 280 km) entre o Pico del Águila e ElBaúl.

Plano de acção

Uma vez satisfeito com a existência de um trajecto viável, procura-se pelo equipamento necessário para atingir o objectivo. Usou-se placas Orinoco há muitos anos. Com uma potência de saída de 15 dBm e uma sensibilidade de recepção de -84 dBm, que são robustas e confiáveis. A perda no espaço livre em 282 km é de 149 dB. Assim, precisaríamos de antenas de 30 dBi em ambos os lados e, mesmo assim, isto deixaria uma margem pequena para outras perdas. Por outro lado, o popular router wireless linksys wrt54g executa linux. A comunidade Open Source escreveu uma série de versões de firmware para o mesmo, permitindo a completa personalização de todos os parâmetros de transmissão. Em particular, o firmware OpenWRT permite o ajuste do tempo de reconhecimento da camada MAC, assim como a potência de saída. Outro firmware, o ddwrt, tem uma interface gráfica e uma ferramenta muito conveniente para o levantamento das características de uma localidade.


Além disto, o linksys pode ser instalado mais próximo a uma antena do que um laptop. Assim, decidimos por um par destes dispositivos. Um foi configurado como AP (access point) e o outro como cliente. O wrt54g pode funcionar com 100 mW de potência de saída com boa linearidade, podendo até ser forçado a 200 mW. Mas num valor tão alto, a perda de linearidade é severa, com a geração de sinais que devem ser evitados. Mesmo sendo um equipamento para o consumidor final e relativamente barato, depois de muitos anos que o utilizamos tínhamos a confiança de que ele poderia servir ao nosso propósito. Mas é claro que, por via das dúvidas, mantivemos um conjunto de reserva por precaução. Com a configuração da potência de saída para 100 mW (20 dBm), poderíamos obter uma vantagem de 5 dB em comparação com a placa Orinoco. Desta forma, a decisão final recaiu sobre a utilização de um par de wrt54gs.

Levantamento dos dados do Pico del Águila

Em 15 de Janeiro de 2006, no Pico del Águila certificamo-nos do local que o Radio Mobile informou como viável. O azimute em direcção a El Baúl é de 86°, mas com a declinação magnética de 8°16', assim, nossa antena deveria apontar a uma direcção magnética de 94°. Infelizmente, ao olharmos na direcção de 94°, encontramos uma linha de visão obstruída por um obstáculo que não foi mostrado pelo software, em função da resolução limitada dos mapas de elevação que estavam disponíveis de forma livre. Examinando as redondezas e procurando por um caminho livre em direcção ao leste. Identificaram-se vários locais promissores e tiraram-se fotos de todos, anotando as coordenadas com um gps para o processamento posterior com o Radio Mobile. Isto permitiu que se refinasse a selecção do caminho, resultando naquele que é mostrado na Figura 11.26 com o uso do Google Earth:

Figura 11.26: Vista do link de 280 km. O lago Maracaibo está ao oeste e a península de Paraguaná ao norte. O perfil de rádio obtido com o Radio Mobile é visível na Figura 11.27:


Figura 11.27: Mapa e perfil do caminho proposto entre o Pico Águila e a colina Morrocoy, próxima à cidade de El Baúl.

Os detalhes do link wireless são visíveis na Figura 11.28:


Uso de antenas

Antenas de alto ganho para a banda de 2,4 GHz não estão disponíveis na Venezuela. Os custos de importação são consideráveis. Assim, decidimos por reciclar reflectores parabólicos (anteriormente usados para serviços de satélites) e substituir sua alimentação de rádio por uma projectada para 2,4 GHz. Fizemos a prova de conceito com um prato de 80 cm. O ganho era muito baixo. Testamos então com um reflector de 2,4 m. Isto deu um alto ganho, apesar de algumas dificuldades no direccionamento do feixe de 3,5°. O offset (diferença angular) de 22,5° significa que o prato parece apontar para baixo quando está alinhado horizontalmente. Vários testes foram realizados com o uso de várias cantennas e uma Yagi de 12 dBi como alimentadoras. Apontamos a antena para uma estação base da universidade que estava localizada a 11 km, numa montanha de 3.500 m de altitude. A localidade dos testes está a 2.000 m e, em função da diferença de alturas e da distância, o ângulo de elevação é de 8°. Por causa do offset da alimentação, apontamos o prato 14° para baixo, como pode ser visto na ilustração a seguir:

Conseguimos estabelecer o link com a estação base em Aguada, mas nossos esforços para medir o ganho da configuração, usando o Netstumbler, não tiveram sucesso. Havia muita flutuação nos valores medidos para a potência de recepção com o tráfego real. Para uma medida significativa do ganho precisávamos de um gerador de sinal e de um analisador de espectro. Estes instrumentos também foram necessários para a ida a campo quando do alinhamento apropriado das antenas. Enquanto esperávamos por este equipamento, procuramos pela antena a ser usada na outra ponta, assim como um sistema de direccionamento apropriado para o feixe estreito de rádio.


A colaboração entre a Escola Latino-Americana de Redes (EsLaRed) e o Centro Internacional Abdus Salam para a Física Teórica (ICTP) data de 1992, quando a primeira Escola de Redes aconteceu em Mérida, com o patrocínio do ICTP. Desde então, membros de ambas as instituições têm colaborado em várias actividades. Algumas delas incluem uma escola anual de formação em redes wireless (organizada pelo ICTP) e outra em redes de computadores (organizada pela EsLaRed) que acontecem em vários países da América Latina.

Usando uma antena parabólica de grade, de 2,75 m, na casa de um vizinho. A Figura 11.30 mostra a desmontagem do reflector de grade.

Trocamos o alimentador de rádio pelo de 2,4 GHz e apontamos a antena para um gerador de sinais instalado no topo de uma escada a 30 m de distância. Com um analisador de espectro medimos o sinal máximo e localizamos o foco. Também localizamos o melhor posicionamento para o alimentador e o offset das antenas. Isto é mostrado na Figura 11.31:

Também comparamos o sinal recebido com a saída de uma antena comercial de 24 dBi. Isto mostrou uma diferença de 8 dB, o que nos levou a concluir que o ganho geral de nossa antena era de cerca de 32 dBi. Claro que há alguma incerteza neste valor. Estando a receber sinais reflectidos, mas o valor estava de acordo com o calculado para as dimensões da antena.

Levantamento dos dados de El Baúl

Estando satisfeitos com o funcionamento apropriado e o direccionamento de ambas as antenas, decidimos fazer o levantamento dos dados do outro lado do link, em El Baúl. Carlo Fonda, Gaia Fior e Ermanno Pietrosemoli chegaram à cidade no dia 8 de Abril. No dia seguinte encontramos uma colina, ao sul da cidade, com duas torres de telecomunicações dos dois operadores de relemóveis e outra que pertencia à prefeitura de El Baúl. A colina de Morrocoy está cerca de 75 m acima da área a seu redor e cerca de 125 m acima do nível do mar. Isto garante uma vista sem obstruções em direcção a El Águila. Há uma estrada de terra até seu topo, uma grande vantagem para nós em função do peso da antena.

Realizando a experiência

Em 12 de Abril, uma quarta-feira, Javier Trivino e Ermanno Pietrosemoli viajaram em direcção a El Baúl, com a antena carregada num camião com tracção às quatro rodas. Na manhã do dia 13 de abril instalamos a antena e a apontamos a uma direcção de 276°, dada a declinação de 8° e, desta forma, resultando no azimute real de 268°. Ao mesmo tempo, a outra equipa (composta por Carlo Fonda e Gaya Fior do ICTP, com a ajuda de Franco Bellarosa, Lourdes Pietrosemoli e José Trivino) dirigiu-se até a área de Pico del Águila, onde o levantamento já havia sido feito.

Mau tempo é comum em uma altitude de 4.100 m acima do nível do mar. A equipa Águila terminou a instalação e o direccionamento da antena apenas um pouco antes da neblina se formar e começar a chover e nevar. A Figura 11.33 mostra a antena e a corda usada para o direccionamento do feixe de rádio de 3o. A energia eléctrica para o gerador de sinal foi fornecida pelo camião, com um inversor de 12 VDC para 120 VAC. Às 11 da manhã em El Baúl conseguimos observar um sinal de -82 dBm que estava de acordo com a frequência de 2.450 MHz, com o uso do analisador de espectro. Para ter certeza de que havíamos encontrado a fonte correcta de sinal, pedimos que Carlo o desligasse. Desta forma, o analisador passou a mostrar apenas ruídos, o que confirmou que o sinal que recebíamos era o originado a 280 km de distância. Depois de ligar novamente o gerador de sinal, realizamos os ajustes finos de elevação e azimute em ambas as pontas. Quando estávamos certos de que conseguimos a máxima potência de recepção de sinal, Carlo removeu o gerador, substituindo-o pelo router wireless linksys wrt54g configurado como access point.

O analisador foi susbtituido da outra ponta pelo wrt54g configurado como cliente. Imediatamente começamos a receber os sinais de sincronização e ligação, mas não conseguíamos fazer com que os pacotes de ping atravessassem o link. Isto era esperado, uma vez que a propagação de uma onda de rádio em um link de 200 km é de 1 ms. Isto faz com que se passem ao menos 2 ms para que o sinal de reconhecimento atinja o transmissor. Felizmente, o firmware OpenWRT permite que seja ajustado o tempo de reconhecimento (ACK). Depois que foi ajustado para 3 ordens de grandeza acima do padrão esperado pelo link WiFi, começamos a receber os pacotes com um atraso de cerca de 5 ms.


Começamos a transferir vários arquivos PDF entre os laptops de Carlo e Javier. O resultado é exibido na Figura 11.35.

Figura 11.35: Captura de tela do laptop de Javier, mostrando os detalhes da transmissão de arquivos PDF do laptop de Carlo a 280 km de distância, usando dois routers wrt54g sem amplificadores. Note o tempo de ping de alguns milisegundos.

Figura 11.36: Javier Trivino (à direita) e Ermanno Pietrosemoli transmitindo a partir da antena de El Baúl.

Mérida, Venezuela, 17 de Abril de 2006

Um ano depois de realizar esta experiência, conseguimos o tempo e os recursos para repeti-la. Usamos duas antenas comerciais de 30 dBi e um par de routers wireless modificados pelo grupo TIER, liderado pelo Dr. Eric Brewer da Universidade de Berkeley. O propósito da modificação do padrão WiFi MAC é para permitir seu uso em aplicações de longa distância, substituindo controles de acesso CSMA por TDMA. Este último aplica-se melhor para links ponto-a-ponto de longa distância, já que não requer a recepção de ACKs. Isto elimina a necessidade de espera por uma viagem de ida e volta de 2 ms de um link de 300 km. Em 28 de Abril de 2007, a equipe formada por Javier Trivino, José Torres e Francisco Torres instalou uma das antenas em El Águila. A outra equipa, formada por Leonardo González V., Leonardo González G., Alejandro González e Ermanno Pietrosemoli instalou a outra antena em El Baúl. Um link sólido foi rapidamente estabelecido com o uso dos routers wrt54g. Isto permitiu a transmissão de vídeo com uma velocidade medida de 65 kbps. Com os routers TDMA, a velocidade medida foi de 3Mbps em cada direcção. Isto resultou em um total de 6 Mbps, de acordo com o previsto nas simulações executadas em Berkeley.

Podemos melhorar?

Entusiasmados com estes resultados, que pavimentaram o caminho para links de banda larga de longa distância realmente baratos, a segunda equipa dirigiu-se para uma outra localidade previamente identificada a 382 km de El Águila, num local chamado Platillón. Platillón está a 1.500 m acima do nível do mar e não há obstrução na primeira zona Fresnel em direcção a El Águila (localizada 4.200 m acima do nível do mar). O caminho proposto é mostrado na Figura 11.38:

Como antes, o link foi rapidamente estabelecido com o equipamento linksys e os routers fornecidos pelo TIER. O linksys apresentou uma perda de pacotes de aproximadamente 1%, com o tempo de transmissão e recepção (ida e volta) de 12 ms. O equipamento TIER não apresentou perda de pacotes e o tempo de propagação foi menor que 1 ms. Isto possibilitou a transmissão de vídeo, mas o link não era estável. Percebemos flutuações consideráveis do sinal que interrompiam frequentemente a comunicação. Apesar disto, quando o sinal recebido estava em cerca de -78 dBm, a velocidade medida era de 6 Mbps em ambas as direcções com os routers TIER implementando TDMA.

Mesmo que testes adicionais devam ser feitos para garantir os limites de uma velocidade estável, temos a certeza de que a tecnologia WiFi tem grande potencial para a comunicação de banda larga em longa distância. Isto atende particularmente bem regiões rurais, onde o espectro ainda não está super populado e a interferência não é um problema, desde que exista uma boa linha de visão para o sinal de rádio. Agradecimentos Gostaríamos de expressar nossos agradecimentos ao Sr. Ismael Santos, que emprestou sua antena para a instalação no El Águila, e ao Engenheiro Andrés Pietrosemoli por fornecer as juntas especiais usadas na instalação e transporte das antenas. Também queremos agradecer o Centro Internacional Abdus Salam de Física Teórica, que patrocinou a viagem do Carlo Fonda de Itália até a Venezuela.

O experiência de 2006 foi executada por Ermanno Pietrosemoli, Javier Trivino da EsLaRed, Carlo Fonda e Gaya Fior do ICTP, com a ajuda de Franco Bellarosa, Lourdes Pietrosemoli, e José Trivino. Nos experimentos de 2007, o Dr. Eric Brewer da Universidade de Berkeley University forneceu os routers com o MAC modificado para longa distância e a ajuda entusiástica de seu colaborador, Sonesh Surana. A RedULA, CPTM, a Diretoria de Serviços da ULA, Universidad de los Andes e a Fundacite de Mérida também contribuíram para estes testes.

Este trabalho foi financiado pelo ICA-IDRC.

Referências

Fundación Escuela Latinoamericana de Redes

Centro Internacional Abdus Salam de Física Teórica

Fundacite Mérida

Editor

--Cmsv 01h57min de 22 de janeiro de 2010 (GMT)